Porque eu me apaixonei pelo Vietnã

Essa semana faz um ano que eu coloquei os pés pela primeira vez no Vietnã. Esse país comprido foi muito fácil de amar, de me encontrar e encontrar outras pessoas. Foi aquela sensação de estar no lugar certo e na hora certa. Ah, e também o berço desse blog! Eu poderia passar meses (mais ainda!) no Vietnã, descobrindo paisagens naturais que me deixam bestificada, me perdendo em plantações de arroz, comendo bem, tomando um bom café e descobrindo muito sobre os outros, o mundo e a mim mesma. O Vietnã foi o meu ponto de virada, não sei se muito do que aconteceu ali adiante teria acontecido de uma maneira parecida em outro lugar. Não sei se estenderia minha viagem de 1 mês para o infinito e além e teria me desafiado tanto. Lá estive completamente só pela primeira vez, mas nunca só de verdade, porque lá encontrei meus primeiros amigos de viagem, novos companheiros de moradia, coloquei um mochilão falso comprado na Índia nas costas – que se deteriorou mais rápido do que imaginava – e me joguei. Completamente despreparada. Tão despreparada como qualquer um pode estar na primeira vez. Na Índia, meu primeiro país, eu conheci a estrada, fui deixando-me ser levada meio ressabida, meio como que abordando um estranho, acostumando-me a ele e encantando-me com essa descoberta. No Vietnã, eu me apaixonei pela estrada, pelo sentimento de liberdade e de sentir meu rumo nas minhas mãos, ou melhor, nos meus pés, como completamente dona e senhora dele. E, ao mesmo tempo, tive que aprender a confiar mais nas surpresas que a estrada proporciona e estão muito além do nosso controle. Não seria isso a vida? Fui para ficar uma semana e acabei ficando dois meses e meio, arranjei trabalho, fiz amizade com os locais e viajei o país de ponta a ponta. Se meu visto não tivesse expirando – fui embora no dia que ele vencia, literalmente fiquei até o último minuto -, provavelmente teria ficado ainda mais.

Não só por todas essas transformações que o Vietnã me causou, esse é um dos países que mais gostei e recomendo bastante para as pessoas, e os motivos agora já não tão pessoais, e puramente verdadeiros, estão aqui:

1          Café

Assim como o Brasil, a cultura do café no Vietnã é muito viva. Na capital Hanói, por exemplo, em cada esquina existe uma cafeteira incrível, algo que não vemos tanto em nosso país. O café deles é forte e já ouvi vários comentários de pessoas afirmando que sentem um certo gosto de chocolate nele. Além disso, existem várias receitas peculiares para se provar, como o egg coffee, que seria o café com creme de clara de ovo, o café vietnamita, que adiciona leite condensado na bebida, e também misturas pouco prováveis de se acreditar que combinam mas na realidade são deliciosas, como o café com côco. Tudo isso com um preço acessível, exceto pelo café da doninha, aquele famoso feito a partir de grãos expelidos nas fezes do animal e que custa super caro, já que é considerado um do melhores cafés do mundo. Quando morei em Hanói conhecer cafeterias era um dos meus hobbies preferidos, perdi a conta de quantas eu experimentei. É, sem dúvidas, um programa obrigatório aos amantes do café, um tour delicioso e com plena satisfação, sair andando descobrindo a cidade e seus cafés.

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Cong Caphe

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2         Natureza Deslumbrante

O Vietnã foi o maior imprevisto da minha vida. Cheguei para ficar uma semana e acabei ficando 2 meses e meio e só fui embora porque meu visto iria expirar. Acabei encontrando uma turma super animada e me juntei a eles para cortar o país do norte ao sul, o que descobri ser o modo usual  – ou o inverso, do sul ao norte – que as pessoas viajam pelo Vietnã. Ou seja, começamos em Hanói, a capital, e terminamos em Saigon (Ho Chi Min City), a maior cidade do país. O que é muito simples, já que suas dimensões são longas, mas nada largas. Já estava impressionada com o norte, perto da região da capital. É no norte que ficam os cartões postais do país, Sapa – famosas pelas montanhas cheias de plantações de arroz – e Halong Bay – que abriga milhares de formações rochosas em sua baía. Mesmo quando eu já havia visto o que supostamente era o melhor do país, rumando ao sul eu não parava de ser surpreendida pela sua natureza deslumbrante e parecia ficar cada vez melhor. São parques nacionais, cidades históricas, praias paradisíacas, cachoeiras gigantes, florestas tropicais, cavernas – a maior caverna seca do mundo está lá! E tem até uma caverna de lama (sim, de lama) extraordinária -, deserto, rios de vários tipos, vales e montanhas.  Em certo ponto já repetíamos: “Vietnã, para de ser lindo!”, sendo sempre surpreendidos pela beleza natural infinita.

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Halong Bay. Reparem como a rocha da esquerda se parece com o perfil de um homem

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Mais uma de Halong Bay

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Parque nacional de Phong Nha, um dos pontos altos de toda a minha viagem

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A maior caverna seca do mundo em Phong Nha

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As plantações de arroz mais bonitas do mundo

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Ainda tem praias paradisíacas..

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E cachoeiras espetaculares!

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The Gang! Viajei com essa turma incrível por duas semanas

3        Influência francesa

Pra quem não sabe, o Vietnã foi colonizado pela França e fazia parte da Indochina francesa, junto com Camboja e Laos. Especialmente no Vietnã percebi mais fortemente tal influência e cidades como Hanói – onde os resquícios parecem mais fortes – são cheias de prédios antigos franceses que dão um visual retrô, ao mesmo tempo em que é cheio de motos e traz a tona a época em que nós vivemos. Essa arquitetura é repetida em boa parte do país. Hanói é enfeitada com flores por todos os lados, muito arborizada, o que faz você se sentir perdido em meio às cores na capital. Sem contar os pequenos sebos espalhados pela cidade. Depois de 2 meses na Índia, foi ótimo poder comer pão novamente e algo peculiar no país – em contraste com o restante da Ásia – são as deliciosas padarias, também fruto da influência da colonização. Aliás, alguns pratos são muito elaborados e mais uma vez me parece ter a ver com o toque francês na cultura.

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Hoi An, cidade com arquitetura de influência francesa e considerada patrimonial cultura pela Unesco

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Cidade litorânea de Hoi An

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Finalmente uma padaria com doces na Ásia!

4         Influência chinesa

O Vietnã foi dominado por cerca de 1000 anos pela China. Obviamente há muitos resquícios da influência chinesa e princialmente após visitar a China, ficou ainda mais claro para mim as características que o Vietnã guardou da colonização. A influência está na comida (o que é ótimo, já que a comida chinesa foi uma das melhores experiencias gastronômicas que tive), no budismo, nos edifícios, no modo de viver, na decoração, na arte. Tal mistura de cultura apenas deixa o país mais peculiar e tem muito para se ver e aprender o visitando.

Notinha: Ao citar aqui as influências das invasões ao país, não estou apoiando as mesmas terem acontecido, apenas ressaltando características intrínsecas do país por elas terem acontecido.

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5         Gastronomia

É impossível falar do Vietnã e deixar de lado a gastronomia. São tantos pratos diversos que você pode pedir um diferente por dia sem se tornar repetitivo. As combinações são pouco pensadas – mas muito bem acertadas! – que fazem a culinária desse país ser tão peculiar. A comida de rua também é deliciosa e uma experiência única. Não dá para ir ao Vietnã sem fazer um tour de street food (comida de rua) e você vai ficar abismado em como o pho, uma sopa com legumes, macarrão de arroz e carne, pode combinar perfeitamente com o clima quente e úmido do pais, e nunca vai ser demais comer em qualquer esquina um bánh mì, a baguete mais especial do sudeste asiático, e para algo mais requintado é sempre valido pedir uma das panquecas vietnamitas, que não tem nada a ver com a panqueca que conhecemos e consegue ser ainda melhor. O churrasco vietnamita também não é nada como que conhecemos aqui, mas consegue ser mais divertido e interessante de se comer. E sempre com as mãos e palitinhos. Tudo isso pelo preço mais acessível do sudeste asiático! A cidade litorânea de Hoi An vale muito a pena pela experiência gastronômica, alem de ser linda e super rica na influência francesa – inclusive seu centro histórico é tombado pela Unesco.

Ah, me levem de volta ao Vietnã!

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As famosas panquecas vietnamitas!

6         Cerveja

Outra cultura muito forte no país é da cerveja. É possível achar cervejas até por 20 centavos de dólar, mas nesse caso a qualidade não vai ser tão boa. O fato é que a cerveja é tão barata que se tornou até costume de alguns albergues servirem chopp de graça. Mesmo as cervejas de garrafa e de melhor qualidade custam em média 50 centavos de dólar o que faz o Vietnã ser o país mais boêmio do sudeste asiático, na minha opinião! Se você é cervejeiro, esse é outro plus de se conhecer o Vietnã. Não vão faltar cadeirinhas e mesinhas espalhadas pelas calçadas esperando você sentar, interagir com outros turistas ou nativos, e pedir uma “Bia” (cerveja, em vietnamita) Ha Noi ou Saigon.

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7         História

Acho que a maioria das pessoas conhecem o Vietnã pela famosa guerra que ocorreu entre os anos 60 e 70 contra os Estados Unidos. Os resquícios desta guerra estão por todo o país e visitá-lo pode ser também uma aula de história. Você aprende muito sobre a versão vietnamita do conflito em alguns museus e visitas aos principais locais de enfrentamento, tais como os famosos túneis Cu Chi essenciais para a vitória vietnamita. Os fatos relatados no Museu da Guerra em Saigon são de embrulhar o estômago, mas expõe parte da realidade do que de fato ocorreu – atrocidades feitas pelo exército americano. Eu, particularmente, tive sorte e inclusive compareci a uma entrevista super interessante com veteranos de guerra. Além disso, há muito a ser contado no país sobre a revolução comunista, assim como sobre a colonização e independência do Vietnã em relação à China e França.

8          Povo

Nesse 1 ano que passei na Ásia, comecei a admirar enormemente o povo asiático. O que você encontra é uma espécie de harmonia e gentileza que permeia todo o sudeste asiático e alguns países aos arredores. Isso se deve em parte, acredito, à cultura budista. No Vietnã, o que me chamou mais atenção, até pela história, é pela coragem e força da população, sempre lutando pela sua terra e ideias. Senti de certa forma muito o empoderamento feminino, talvez não dos direitos, mas de se reconhecerem como parte essencial na construção do país. Inclusive, em Hanói existe um museu dedicado inteiramente às mulheres vietnamitas – às mulheres tribais, guerrilheiras e que se sacrificaram pelo país. O Vietnã foi um dos países em que mais interagi com os nativos, até mesmo por ter trabalhado em Hanói por um mês, e recebi muito carinho e ajuda de alguns vietnamitas que guardo com muito afeto. O acolhimento e prestatividade que você recebe te deixam mais à vontade, e inclusive já contei para alguns amigos na época que de certa forma a experiência no Vietnã me remetia a sensação de estar em casa.

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Museu das Mulheres em Hanoi

9            Arte

Bom, ainda não fiz aquele tour europeu, mas no que diz respeito a Ásia, achei o Vietnã o país onde a arte mais permeia. É possível achar diversas galerias de arte nas maiores cidades, sendo a temática geralmente voltada ao nacionalismo vietnamita e também a sua cultura. Você anda pela rua parando o tempo todo para observar as criações – pelo menos eu, até me acostumar, haha. Além disso, os souvenirs vendidos no país são maravilhosos, as roupas são de uma qualidade melhor e com estampas mais originais e próprias do lugar. Os ambientes de lojas e restaurantes são muito bem pensados no sentido decorativos. Ou seja, tudo de bom já citado antes ainda se complementa com um ar artístico. Sem dúvidas, um lugar para te inspirar!

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10        Cultura

Como não se encantar com as pessoas na rua usando o nón lá, famoso chapéu vietnamita? Ou te servirem chá em qualquer ocasião – almoço, massagem, cortando o cabelo? Como não achar lindo o sorriso envergonhado das pessoas? E as flores e floristas preenchendo a paisagem da cidade? Como não se deliciar com comidinhas de ruas diferentes em cada esquina? E sentir uma espécia de medo e excitação ao atravessar uma rua com motos para todos os lados? Alias, como não amar o vento no rosto dando uma volta de moto pela cidade ou conhecendo aquelas paisagens que te contei? E se maravilhar com as plantações de arroz mais lindas do mundo? Passar horas conversando regados a bom café ou cerveja barata? E se sentir na maior aventura cotidiana diante de todo o caos, as luzes, as informações que te assolam?

Vietnã, como não se apaixonar?

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Hanói, Vietnã

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Hanói, Vietnam

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Amazing Saigon

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CHINA – A mais grandiosa nação que estive

China. Ah, China! Depois do Vietnã, a China foi o mais que mais me surpreendeu positivamente nessa viagem. Fui pra China mais pelo costume tailandês que peguei de responder aos mais diversos convites da vida “why not?” (por que não?). Acho que nós, turistas, acabamos criando o mesmo hábito. Alguma coisa no lugar liga o modo why not em nós. E foi assim que respondi ao convite do meu primo, João, que iria me visitar na Ásia, sobre conhecer a China. Confesso ter respondido com um why not meio relutante. A China estaria no auge do inverno e finalmente no sudeste asiático as monções assassinas haviam passado. O país não era tão perto assim também. Mas acabei sucumbindo à curiosidade de conhecer a cultura milenar chinesa e vivenciar algo diferente da cultura do sudeste asiático que eu já estava inserida há tanto tempo. Também já havia completado praticamente todo o sudeste asiático e uma decisão precisava ser tomada em breve sobre voltar ao meus país. Bom, se eu decidisse voltar ao Brasil, não seria nada mal terminar a viagem num dos países mais grandiosos, fabulosos e históricos do mundo. Enfim, depois de 15 dias de sol, praia, curry e Chang (a cerveja mais querida da Ásia), João e eu partimos para o sul da China.

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Importante nota de viajante aqui. É fato notório que a China é um dos maiores países do mundo, especificamente o terceiro. O último país que estive e possuía grandes proporções geográficas era a Índia. Aprendi na pele a dificuldade de se viajar em países desse tipo e já imaginava que a China seria algo semelhante. Outra questão importante é o tempo. João só poderia ficar cerca de 15 dias no país, o que dificultava mais ainda nossa flexibilidade e mostrava a necessidade de evitar percorrer longas distâncias. Se você está num país grande, como pouco tempo, e quer conhecer várias regiões distintas, provavelmente irá desembolsar uma boa grana com diversos vôos e terminará a viagem exausto. Assim, sabiamente decidimos focar numa específica região da China, o sul, tendo apenas como último destino Pequim, ao norte, de onde João decolaria de volta ao Brasil. E foi a melhor escolha que poderíamos ter feito! O sul é uma excelente porta de entrada para a China se o que você busca é o contato com a natureza e não tanto o caos, arranha-céus e poluição das grandes metrópoles. O sul é mais rural, mais simples, e mesmo com o distanciamento das zonas mais desenvolvidas, ainda assim tudo parecia surpreendentemente muito estruturado. Estava acostumada com as condições mais que simples – pra não dizer precárias, às vezes – do sudeste asiático e encontrar uma China com enormes discrepâncias em relação aos países vizinhos foi realmente uma surpresa. Entramos pela província de Yunnan, fronteira com o Tibet. Escolhemos o sul por dicas de amigos e pesquisas em blogs. Queríamos ver uma China mais real, mais rústica, exuberante pela natureza, não pelos prédios. A porta de entrada foi Kunming, cidade de “pequeno porte” com cerca de 3 milhões de habitantes. No aeroporto já era possível se perceber muitas coisas sobre o país, dentre elas a grande estrutura e economia da China, o frio intenso que iríamos enfrentar, além da barreira linguística estrondosa. Apesar de sabermos ser a China a segunda maior economia do mundo, por ignorância ou outra coisa, não imaginávamos que a mesma fosse tão estruturada. Há desenvolvimento em todo e qualquer canto. Onde quer que fossemos alguma obra estava sendo feita. Havia metro, ônibus, vans, etc, para te levar a quase qualquer canto. Usamos táxis poucas vezes. Estradas, trilhas de trem conectando todo o país. Apenas chegando muito próximo ao Tibet as formas de locomoção se tornam mais nebulosas. Tudo no geral funcionava e nunca nem precisamos esperar mais de 10 minutos por um ônibus. Os trens também saíam na hora, eram decentes e rápidos. Vi bem menos quantidade de lixo do que em qualquer outro lugar da Ásia.

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Templo do Paraíso em Pequim

Voltando à viagem. Não perdemos muito tempo em Kunming e logo estávamos em Dali, na parte antiga da cidade, cercada por uma pequena muralha, cheia de construções antigas e com montanhas geladas deslumbrando o cenário. Chineses aparentemente adoram viajar e eles estão em todos os lugares. Andávamos nas ruas de Dali e só víamos chineses, muitos chineses, sempre chineses, para cima e para baixo. De fato estávamos um pouco fora do eixo turístico, pelo menos nessa época do ano. A Antiga Dali acabou nos encantando e ficamos na cidade até mais do que o planejado. Sentindo frio, tomando cafés e cervejas caros e ruins, porém, mais que tudo (e a razão do encantamento), nos perdendo pelas vielas e conhecendo os arredores do lago imenso que enfeita a cidade. Maior que ela provavelmente.  Como há poucos turistas estrangeiros, acabamos nos aproximando mais de pessoas que residiam no país. O que é ótimo, na verdade. Sair com os locais é a melhor maneira de conhecer e entender a cultura do país, sem contar os pratos maravilhosos que nos são apresentados e que nunca teríamos experimentado de outra forma! Logo nos primeiros dias fizemos amizade com Daniel, um americano que morava na China ensinando inglês e facilitou nossas vidas por saber mandarim.

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No nosso último dia João, Daniel e eu alugamos motos elétricas e fomos nos aventurar pelos arredores do lago, depois de uma negociação em mandarim entre Daniel e a dona das motos, em que olhávamos confusos, admirados e invejosos pela capacidade de Daniel de se comunicar com os locais. O passeio foi incrível! Mesmo com o frio, foi muito difícil parar de dirigir e se encantar com a paisagem e a vida rural de Dali.

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A minha moto era essa azul e branca da esquerda! Daniel e João ao fundo

Acabamos escolhendo Ligiang, uma cidade próxima a Dali como próximo destino, pois era o que fazia sentido para seguirmos ao próximo destino, o Tiger Leaping Gorge, onde faríamos um trekking (caminhada longa seguindo uma trilha pela natureza) de dois dias. Ficamos cerca de três noites no local, porém apenas um dia foi suficiente para ver tudo o que tinha na pequenina ancient town de Shuhe, onde escolhemos ficar seguindo a dica de um blog. Andamos, andamos, andamos no primeiro dia, e depois disso, nada mais havia para ser feito no lugar. O frio estava torturante. Não conseguíamos nos comunicar com ninguém. Éramos os únicos ocidentais naquela vilazinha.Visualmente também era muito bonita, cercada de montanhas e com suas casas típicas chinesas. Conseguimos no segundo dia ver um por do sol belíssimo no topo de uma casa em construção que invadimos, o que fez valer mais a pena o tempo gasto no local.

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Noiva chinesa pousando para fotos em Shuhe

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Pôr do sol na Ancient Town de Shuhe

 

Enfim, partimos para fazer a trilha no Tiger Leaping Gorge, que foi um dos pontos altos da nossa viagem juntos e também de toda a minha pela Ásia. Quem acompanha um pouquinho o blog sabe que a minha nova paixão é conhecer países fazendo trekking. Dessa vez, atravessamos um canyon cortado por um rio cor de Jade e acompanhado pela silhueta de montanhas geladas. A natureza estava quase que morta, o ponto baixo de fazer essa trilha no inverno, em contrapartida o rio estava de uma cor realmente jade luminosa e as montanhas enfeitadas com neve. Já podíamos ver a influencia tibetana nas bandeiras budistas que acompanhavam muitas partes da trilha. Dormimos uma noite numa pousada no canyon e terminamos a expedição no segundo dia, após longas horas de caminhada. Meu joelho ainda está sentindo essa aventura que pretendo contar com mais detalhes num próximo post. A seguir, fotos da trilha.

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Após uma rápida parada em Chengdu, voamos para Pequim. Em Pequim o inverno verdadeiramente reinava! Tinha nevado um dia antes de chegarmos e a temperatura não subia para além de 0°C. Apesar disto, estava com o céu aberto e acabamos aceitando o convite de um colega francês que morava na cidade para ir patinar no gelo. Foi um dos maiores arrependimentos da minha vida no momento, mas agora dou risada da experiência. Em Pequim, ao contrário da região sul, anoitecia cedo e às 5 horas da tarde já estava ficando escuro. Sem a luz solar a sensação términa diminuiu mais ainda e a única coisa que conseguíamos pensar era no frio que fazia. Era a primeira vez que patinava no gelo – num lago congelado de verdade e não num shopping – e lógico que levei uma bela queda. Mal deu meia hora patinando e resolvemos encerrar a aventura e nos aquecer num restaurante delicioso cuja especialidade era dumplings fritos, uma das melhores refeições que já tive na vida!

A culinária chinesa é outro plus de se visitar o país. Quase todos os pratos que comi eram deliciosos, com explosões de sabores acontecendo na boca todos os dias. Até simples ovos mexidos com tomates eram simplesmente magníficos! Tudo é muito diferente do que se serve no Brasil. Os populares frango xadrez e yakisoba não são famosos como se parece e preferi muitos outros pratos à esses. O preço só incentivava a experiência gastronômica e geralmente gastávamos menos que 4 dólares por uma refeição excelente. Poderia gastar parágrafos e parágrafos escrevendo sobre a culinária chinesa, mas deixo só essas palavras registradas: dumplings fritos e cozidos, steamed buns e hot pot. 

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A China realmente foi cheia de pontos altos. E logicamente a muralha da China foi um deles. A maioria das coisas que fiz e dos lugares que conheci nessa viagem nunca tinham passado pela minha cabeça. Nunca pensei em subir um vulcão, trabalhar numa ilha, nadar com tubarões, dormir no deserto, rapel numa cachoeira, conhecer Halong Bay, Angkor Wat, as cachoeiras de Kuang Si no Laos, os túneis da guerra do Vietnã, etc, etc. Mas sempre, sempre quis conhecer a muralha da China. E o sentimento de sonho realizado é um dos melhores que existem. Desbravei cada pedaço da parte que visitei da muralha me deliciando dos passos. O frio que antes incomodava sempre, lá escapava da minha memória. Mesmo com o joelho machucado, andamos muito, tentando nos distanciar da multidão de turistas e nos aproximar da parte vazia e com neve. A muralha da China parece de certa forma uma serpente. E em cada novo topo alcançado ou curva desta serpente, era uma paisagem nova e única a ser vista. Sim, foi sonho realizado!

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Nos dias seguintes, a famosa poluição de Pequim mostrou as caras. Mal conseguia enxergar os prédios e a visita à Cidade Proibida foi de certa forma tenebrosa. O cinza-vermelho dominava a cidade e era possível sentir o gosto poluição. Gostei de Pequim, achei uma cidade bonita com vielas-labirintos que davam vontade de me perder. Histórica, era possível aprender e ver bastante sobre a China. Mas achei muito difícil aproveitar a cidade (diferente de Xangai) não só pela época do ano mas também pela poluição que domina a cidade. Engraçado como o ser humano se adapta a qualquer tipo de situação. Fiquei me perguntando como alguém pode morar em tais condições.

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De Pequim segui para Xangai, que resolvi conhecer mais pela oportunidade (ir para a China e não conhecer Xangai parece estranho) do que interesse real. Mas – e mais uma vez surpreendida pelo país – Xangai se tornou uma das minhas cidades preferidas do mundo! São Paulo nunca pareceu tão sem graça para mim após visitar Xangai. Também pretendo escrever uma postagem sobre a cidade já que pude dedicar mais tempo a ela. Infelizmente, acabei não ficando mais do que um mês na China, e perdi de conhecer muitos lugares incríveis. Mas isso só me dá mais razões para voltar ao país. O que não falta são locais com a natureza deslumbrante e muita cultura e história para conhecer. Achei a paisagem linda no inverno, mas alguns programas ficam difíceis de serem feitos.

Mesmo com poluição, internet bloqueada (passamos a maior dificuldade tentando nos conectar com o mundo ocidental), barreira linguística, frio e longas distâncias percorridas, a China é um dos meus países preferidos e recomendo todo mundo que tenha interesse a visitar. É seguro, organizado e barato. Não vou mentir, viajar pela China é viagem de verdade, daquelas que exige disposição para enfrentar desafios e procurar informações, paciência para tentar se comunicar (andava com um livro de frases chinesas do Lonely Planet comigo e ajudou bastante) e atenção para seguir as informações. Ser esperto e precavido te salva em muitas situações. O engraçado é que você acaba se tornando (e se virando) mesmo que não seja o seu perfil. Países difíceis de serem viajado te testam e podem te mudar pra melhor. Em lugares como Pequim e Xangai, mais ocidentalizado, você relaxa um pouco mais, mas não fica exatamente fácil. Lugares como China e Índia devem ser visitados justamente pela recompensa de todos os perrengues. É difícil por alguma razão. Há sempre um tesouro escondido (e único!) e na China de fato há muitos! Encare os desafios com excitação para atravessá-los, pois no final o sentimento de missão cumprida e “valeu a pena” diante de paisagens inesquecíveis, conhecendo o inimaginável e vivenciando o que poucos tiveram disposição para fazer, é o que vai ficar na memória.

Trekking, o melhor modo de explorar a Ásia – Parte II

Uma das mais recentes experiências de trekking que tive foram na ilha de Java, Indonésia, basicamente de subidas (hiking) e por isso também uma novidade. Mas não só isso foi novo. Estava descontente com Bali e as Gili Islands – ultra turísticas, lotadas e inflacionadas -, e Mike, um amigo austríaco que fiz no Vietnã, como se estivesse lendo meus pensamentos, quando soube que eu estava na Indonésia me mandou mensagem falando para não deixar de conhecer Java, a principal ilha do país e onde a capital está localizada. Disse que fez uma espécie de expedição para visitar e subir dois vulcões e que foi incrível. Ele tinha feito um tour de Java para Bali, que passava pelo vulcão Bromo e Ijen, mas como eu estava em Bali, o percurso seria o inverso. Pesquisei primeiro sobre o tour com agências de viagem, como fez o Mike, mas os valores eram completamente absurdos. Não iria pagar pelo que pediam. Ademais, fujo de tours sempre que posso e tento descobrir como fazer sozinha. E foi isso que fiz. Ficar 30 minutos aqui, 30 minutos ali, conforme o roteiro do tour manda, não é para mim e a liberdade de se apreciar como quer conta muito mais. Comecei a pesquisar na internet se havia como fazer o mesmo percurso solo, e para a minha sorte, alguns blogs em inglês ensinavam como fazê-lo. Minha maior preocupação era me aventurar sozinha sendo mulher num lugar tão conservador – Java é uma ilha muçulmana. Eu estava disposta a ir sozinha depois de ser tranquilizada com alguns comentários na internet, mas pedindo todos os dias aos céus para me enviar um companheiro (a) de viagem. O magnífico universo me enviou Leanne, uma inglesa que estava no mesmo quarto que eu num hostel em Ubud, Bali. Falei da minha aventura e perguntei se ela estava afim, e na verdade ela estava com os mesmos planos que eu! Perfeito! Leanne é um amor de pessoa, tive muita sorte de encontrar ela, passamos o resto da semana explorando Ubud juntas e planejando nossa expedição. A ideia era fazer os dois vulcões no meio da noite então assim veríamos o sol nascer do topo. Apesar da informação na internet que encontrei, na prática foi muito mais difícil fazer tudo, simplesmente pelo fato de não existir na Indonésia infraestrutura turística nem perto de adequada – apesar da IMENSA quantidade de turistas – e todo mundo te vê como um caixa eletrônico ambulante.  Qualquer descolamento que precisássemos de automóvel eram vários minutos ou às vezes horas (juro) negociando. Quando chegamos em Banyuwangi, a cidade do vulcão Mt. Injen, primeiro na nossa lista, fomos para uma guesthouse fora da cidade e mais perto do vulcão, conforme as instruções de um blog, mas conseguir alguém para nos levar ao vulcão sem pagar uma fortuna foi uma odisseia. Estávamos no meio do nada e dependíamos basicamente da boa vontade do dono da guesthouse para conseguir um preço adequado até o vulcão. Foram duas horas negociando com os taxistas e o dono do hotel falando em bahasa (principal língua da Indonésia) entre eles e rindo da nossa cara. Haja paciência. Finalmente fechamos um preço bom e fomos no meio da noite para o vulcão iniciar o hiking. Fiquei feliz de não ter contratado nenhum tour porque a trilha é muito óbvia e tem muita gente fazendo, não vi perigo nenhum em fazer sozinha. Foram quilômetros e quilômetros de subida – cerca de 3h até o topo -, à noite, alguns trechos quase verticais. Não tem como dizer que não foi um desafio. Mas sempre que eu me sentia esgotada parava e olhava um pouco o céu infestado de estrelas, com a visão noturna mais adaptada dava para ver a silhueta da paisagem montanhosa e era simplesmente fascinante. Uma das coisas mais lindas que já vi na vida. Uma combinação de montanhas, estrelas, lua e a cratera de um vulcão, quando chegamos ao topo. Esse vulcão é famoso pela lava azul que solta, devido a certos componentes químicos, pelo lago ácido que tem dentro de sua cratera e pela a intensa extração de enxofre. Infelizmente vimos apenas o fim da lava azul dentro da cratera, pois atrasamos e já estava amanhecendo quando chegamos no local. Também não tive tempo para tirar fotos noturnas como queria, minha maior frustração.  Entretanto, o caminho de volta nos primeiros raios de sol foi lindo e cheio de fotos legais. Descemos felizes e saltitantes por termos conseguido fazer essa primeira parte da expedição sozinhas sem nenhum tour ou guia. O primeiro vulcão que víamos! Uma subida difícil e desafiadora que completamos. E mesmo sem fotos das estrelas, lava azul no momento de pico e nascer do sol no topo, essa foi talvez minha maior aventura nessa viagem até agora, em conjunto com o Mt Bromo a seguir.

Descemos o vulcão conversando com um casal de indonésios que nos contaram um pouco mais sobre a vida dos mineradores. O trabalho dos mesmos consiste em descer vários metros num caminho sinuoso cheio de pedras adentro da cratera e subir com quilos de enxofre, diversas vezes por noite. Eles recebem cerca de 10.000 rúpias por cada 10kg extraídos. Bom, 10.000 rúpias são cerca de  USD 0,75, e se isso não é trabalho escravo, não sei como denominar. Algumas vezes víamos senhores acima dos 50 anos carregando as barras de enxofre, sem máscara, sem proteção, sem nada, uma vida destinada a extrair esse componente químico para empresas milionárias. Outras vezes eram jovens com cara de 18 anos, começando o que será uma vida de enxofre. Com toneladas de histórias em seus ombros no fim da vida e convivendo com o odor impregnado aos seus corpos. Vendo a situação dos extratores senti mais empatia pelos indonésios. Dá para entender porque sempre tentam conseguir algum dinheiro a mais conosco. É uma forma de enfrentar a miséria e trabalho pesado ao qual estão destinados. Não me refiro à máfia dos taxistas em Bali e afins – que a própria indonésia com quem eu estava conversando e me contando sobre o país condena -, mas aos mineradores que acabam virando guias de turismo, motoristas para o vulcão e alugam equipamentos para os turistas que passam por ali atrapalhando o trabalho dos extratores e tumultuando a passagem.

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Menino minerador já com cara de velho pedindo alguns trocados por uma foto.

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Extração de enxofre no Vulcão Ijen, ilha de Java, Indonésia

Quando descemos o Mt Ijen os nossos motoristas já estavam nos esperando com as suas respectivas motos. No percurso de moto até a guesthouse sentimos a exaustão de termos dormido apenas duas ou três horas e toda a jornada de fazer o Ijen. Chegando na guesthouse tivemos talvez uma hora de sono e já partirmos para uma das piores viagens de ônibus da minha vida entre Banyuwangi e Probolinggo, a cidade mais próximo do Mt Bromo, um dos vulcões mais famosos da Indonésia. Não sabíamos se conseguiríamos fazê-lo pois ultimamente ele estava soltando muita fumaça, mas decidimos tentar mesmo assim. O ideal seria descansar um dia e recomendo isso para quem resolver fazer a mesma expedição, mas Leanne viajaria em poucos dias e não tínhamos tempo sobrando. Foram cerca de 12 horas num ônibus com assentos duros e verticais, sem ar condicionado, e praticamente só nós duas de ocidentais. Toda a vez que conseguíamos cochilar no assento nada propício a isto, algum local começava a tocar algum instrumento e a cantar pedindo dinheiro ao final, coloco em negrito porque ainda fico surpresa com esse fato. Quando você pensa já ter visto de tudo em ônibus na Ásia, você descobre um que oferece Karaokê. Nos alimentamos basicamente de bolachas e cheetos o dia todo. Chegamos super tarde em Probolinggo e o traslado que leva os turistas para a vila no pé do Bromo não funcionava naquele horário. Foi mais uma hora negociando para achar alguém que nos levasse à vila por um preço razoável. Estávamos exaustas e não muito animadas devido ao cansaço físico e mental. Em poucas horas já teríamos que acordar para ver o sol nascer no Bromo. Acabamos decidindo por não subir o Bromo, mas uma montanha perto do vulcão que oferecia uma vista maravilhosa do mesmo ao nascer do sol. O Mt Bromo é famoso por se parecer com a cratera da lua. A subida dessa montanha foi muito mais tranquila, também muito inclinada mas nada comparada ao Ijen, topamos com pouquíssimos turistas e pegamos o nascer do sol num ponto perfeito. Vou colocar as fotos aqui, que já mostram a vista espetacular do lugar, e não são nada compradas à experiência ao vivo.

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Nascer do Sol com as cinzas (ainda não sei se são cinzas ou uma névoa) do Bromo aparecendo

 

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Barraquinha de chá e café no primeiro View Point com vista para o Mt Bromo

O Ijen foi mais impressionante de se ver, mas acho que na questão de experiência o Bromo foi melhor, já que não havia pressa para ver algo a não ser o nascer do sol e surpreendentemente tinham pouquíssimas pessoas. Assistimos  o nascer do sol e depois paramos num view point para tomar um chá – religioso na Ásia – e apreciar por mais tempo a vista. Depois subi sozinha mais alguns metros já que Leanne estava cansada e preferiu ficar me esperando no primeiro view point. Poderia ter subido ainda mais mas não tínhamos muito tempo, precisávamos pegar um novo ônibus. Também poderia ter ficado mais um dia para subir o Bromo – que era super tranquilo, como me disseram – mas eu tava com um machucado no meu dedão do pé e uma mordida de aranha na minha perna e nem deveria estar fazendo todo esse hiking (yo soy rebelde). Depois de 2 noites sem dormir, quase sem comer, com a voz rouca de barganhar e brigar com motoristas oportunistas, terminamos a expedição dos vulcões em Java, nos virando sozinhas, sem tour, fazendo mímicas e sinais para sermos entendidas. De atrevidas e corajosas, conhecemos dois vulcões, algo que eu nunca esperava fazer na vida. E por muito menos do que as agências de turismo cobravam. Foi mais do que espetacular. Repito mais uma vez nesse blog a importância de ultrapassar supostas barreiras e limites enquanto se viaja, tudo é muito mais possível do que pensamos. Você só vai saber o que tá te esperando do outro lado se atravessar. Quem sabe o que te espera é um vulcão. Ou dois. Rs.

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Vista para o incrível Mt Bromo

Trekking, o melhor modo de explorar a Ásia – Parte I

Descobri e me viciei em trekking na Ásia. É, sem dúvidas, uma das melhores formas de conhecer a vida local de um país, enquanto se maravilha com as paisagens naturais e, ao mesmo tempo, se encontra dentro de uma aventura e atravessando limites. A sensação de missão cumprida, a bagagem de conhecimento que você adquiriu e a coleção de fotos incríveis no final de cada trekking se tornam juntos um prazer único. E viciante. Sem contar as amizades que você faz dentro do grupo de trekking e que no fim parecem amigos de longa data. Mas é claro! Após dividir colchão no chão com quem acaba de conhecer, atravessar rios juntos apoiando um no outro, ficar colados para aguentar o frio da montanha, se constrói em poucas horas uma grande intimidade e se der sorte uma grande amizade também. Meu primeiro trekking foi na Índia, em Mc Leod Ganj, na região do Himalaia. Subimos uma montanha chamada Triund, provavelmente 6h de caminhada contando a subida e a descida. Apesar de ter sido um desafio, foi apenas um dia de trekking, diferente de alguns que você acampa por umas noites. O lugar não poderia ser mais perfeito para eu me apaixonar por esse hobbie. A vista o tempo inteiro era incrível, parecia saída de um filme, e ainda com um plus: vi neve pela primeira vez na vida. Antes estava insegura sobre fazer esse trekking ou não, já que eu não pratico esporte e estava com medo de dar trabalho para o grupo. Mas acabei decidindo pela aventura e esse passo mudou bastante toda a minha viagem pela Ásia. O começo foi muito exaustivo, parava diversas vezes para pegar fôlego, mas da metade para  o final peguei melhor o ritmo e a descida foi bem mais tranquila também, apesar de mais perigosa.

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Eram três brasileiros no grupo comigo e um mexicano, nós morávamos todos juntos em Delhi. Chegando ao topo, como prometido pelo nosso guia – que foi desnecessário, o caminho era bem óbvio –, estava nevando! Uhul! Era a primeira vez que outro brasileiro (salve, Afrânio!) e eu estávamos vendo neve! Para mim foi tudo uma super aventura. Nos próximos dias eu estava destruída, mal conseguia andar, dei um “jeito” no tornozelo que ficou doendo por meses, mas a sensação de ter me aventurado e toda aquela natureza que eu havia descoberto (e só poderia ter feito a pé, a não ser que eu tivesse um helicóptero, rs) me trouxe um sentimento nunca antes experimentado que é a excitação após o trekking.

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Meu próximo país foi o Vietnã e tentei fazer algum trekking lá. Não deu. Tem um bem famoso em Sapa, mas por forças do destino não consegui visitar essa cidade cheia montanhas com plantações de arroz.  Quando estava na Tailândia encontrei Isa, uma espanhola que conheci no Laos e se tornou uma grande amiga, e ela estava planejando fazer um trekking na floresta do norte da Tailândia, numa região bem menos turística do que  a de Chiang Mai e Pai – também famosas pelo trekking. Resolvi me juntar a ela num ônibus caindo aos pedaços e que andava a 10km/h (exagerinho) em direção a Mae Hong Son, a cidade que faz esse trekking fora da zona turística. Conhecemos um casal de parisienses que foram para Mae Hong Son com o mesmo objetivo e nós quatro nos juntamos para a expedição.  Acabamos pagando um preço muito bom por um trekking de 2 dias e uma noite que passava por algumas tribos antigas da Ásia dentro da floresta. Esse trekking acabou sendo mil vezes mais difícil do que eu imaginava e o mais desafiante que fiz até agora. Tivemos que subir alguns morros para chegar às tribos que moravam nos seus topos. Fomos no meio da temporada de chuva e os rios estavam  bem cheios. Esses rios cortam a floresta e por isso tínhamos que atravessar algum a cada 30 minutos, às vezes menos, às vezes mais.

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A odisseia de atravessa os rios 

A água era cheia de sanguessugas pequenininhas que nos atormentavam não só fisicamente como mentalmente. Estávamos sempre molhados e os nossos tênis pesados de tanta água. Sentia que tinha alguma sanguessuga em mim até quando não havia uma. Tive sorte, minha roupa cobria todo o meu corpo, a meia era grossa, então nenhuma sanguessuga conseguiu grudar na minha pele. Os outros, entretanto, sofreram bastantes e sangraram a trilha inteira. A floresta era cheia de mosquitos, úmida, fechada. Após três horas paramos, almoçamos um arroz delicioso guardado numa folha de banana pelo nosso guia, nadamos numa cachoeira meio suja (a quantidade de lixo na Ásia merece até um post a parte, mas que provavelmente nunca vou escrever), e após uns 40 minutos seguimos avante.

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Nosso arroz guardadinho numa folha de banana. Almoçamos no alto de um morro após horas de descida, com alta inclinação e cheia de barro, pois choveu durante a noite. 

As últimas duas horas das 8h que andamos no primeiro dia foram torturantes.  Era puramente hiking (subida), meu ponto fraco, mal tinha fôlego. Quis chorar quase no fim e tava brava comigo por ter embarcado num desafio que eu não poderia aguentar. Pior (ou melhor) é que não havia outro jeito de voltar se eu resolvesse desistir. Mas me mantive forte, sabia que em algum momento chegaríamos ao topo e descansaríamos, finalmente. E em alguns minutos após o meu pior momento chegamos à tribo que iria nos abrigar.  Aleluia! Fizemos alguns exercícios de Yoga para alongar, tomamos chá, e no começo da noite jantamos uma comida deliciosa preparada por uma habitante da tribo. Imagino que a família recebia muito pouco pela nossa estadia. A vilazinha era quase inabitada, acho que são poucas pessoas que podem suportar esse isolamento. Isa divagou bastante sobre essa falta de inquietude dos locais que decidem ficar e passam a vida inteira na floresta enquanto eles sabem que há um mundo de coisas a ser descoberto.

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Nosso jantar delicioso sendo preparado por uma habitante de vila.

As condições eram mais do que básicas. Se quiséssemos tomar banho teria que ser de cuia no maior frio. Como no outro dia já estaríamos de volta, dormimos sujos mesmo. Passamos a noite no chão em cima de uns cobertores numa casinha de madeira com a base alta típica da Tailândia.  Não havia energia. A noite era um silêncio que só era atrapalhado pelo intenso barulho da floresta, cujo som estávamos completamente desacostumados, outra observação de Isa. Foi difícil dormir pelo frio e pelo barulho lá fora, já que a casa era bem aberta. No outro dia acordamos 6h da manhã e em poucos minutos começamos a caminhada. Foi mais curta, mas igualmente difícil. Os outros na verdade acharam pior, mas subir para mim é sempre pior, e passamos por poucos rios. Foram quilômetros e quilômetros de descida. Na última hora minhas pernas já estavam fraquejando. Após 6h de caminhada o trekking havia chegado ao fim. Nem acreditava que tinha conseguido terminar e que eu fui apta àquilo. Forte, tentando acompanhar, ao invés de vacilar e fazer drama aos outros. Talvez esse sentimento de superação é o que mais me encanta no trekking. Fiquei me perguntando como nunca explorei a floresta amazônica que estava pertinho de mim por tantos anos. Meu pai sempre falava que eu iria me arrepender, e me arrependi, era tão fácil ter conhecido as tribos de índio e a floresta lá com ele. A mata na Tailândia era magnífica – de um verde kriptonita único –, principalmente os vales de samambaia que pareciam o lugar onde as fadas moram, mas ainda não vi aqui na Ásia nada comparado ao tamanho das nossas árvores no norte do Brasil.

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O “vale das samambaias”, como chamo!

Parece que Borneo é semelhante, mas está sofrendo um intenso desmatamento, especialmente esse ano, exterminando espécies únicas de orangotangos e acabando com a biodiversidade. A fumaça das queimadas que estão acontecendo por lá já chegaram até Singapura, Malásia e Tailândia, para se ter noção, intoxicando muitas pessoas e atrapalhando o turismo nos locais. Eu vivi isso.

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O trekking mais longo que fiz foi em Myanmar. Três dias e duas noites. Como foi mais ou menos um mês após esse de Mae Hong Son, achei tranquilo se comparado a ele. Passamos pelo interior basicamente latifundiário de Myanmar, entre Kalaw e Inle Lake (um dos principais pontos turísticos do país),  e o que mais cansou foi a distância a ser percorrida e não o caminho em si. Os pontos de subida, pra variar, foram os mais difíceis para mim, mas não costumavam ser muito longos.

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Depois de uma longa subida. Haja fôlego!

As principais atrações eram as plantações de arroz, a trilha de trem que percorremos a pé e a vista dos morros. Myanmar é tão retrogrado que ainda aram a terra com boi/ búfalo. São pequenos agricultores que moram em vilarejos, com casas simples, escolinha, templo/ monastério, um ou outro mercadinho, e vivem com muito pouco. Alguns acabam saindo, indo para a cidade, estudando inglês e tendo uma profissão não ligada à agricultura, como a nossa guia (uma mulher, viva!) .

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Como era a paisagem da maior parte do nosso trekking em Myanmar.

O grupo de trekking foi incrível! Entramos em sintonia super rápido e foram risadas do começo ao fim. Fomos muito bem recebidos pelos locais – os nativos de Myanmar são os mais gentis que conheci –, a comida preparada pela nossa guia era deliciosa e as condições para dormir (um colchão fino no chão e várias cobertas) mais confortáveis do que a que fiquei na Tailândia. Tinha energia, porém o banho era de cuia. Dessa vez tomei os dois dias! Hehe O céu tinha sempre um punhado de estrelas. A chuva não durava cinco minutos quando resolvia cair. Acabamos o trekking após três dias conosco atravessando o Inle Lake de barco. Maravilhoso. Que experiência. Amo.

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Nosso grupo lindo de trekking ao final do último dia, atravessando o Inle Lake.

Decidi repartir essa postagem em duas pois a história do trekking no vulcão Mt Ijen e Mt Bromo na ilha de Java, Indonésia, merece ser contada com detalhes e está mais fresco na memória. Em breve, aqui no Sem um Dong no Vietnam! Que agora não é nem mais dong e nem só no Vietnã.

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Foto tirada em uma das escolinhas de alguma das vilas que passamos.

 

 

 

Sinais de que você está na Ásia por muito tempo

Quando você chega na Ásia a tendência é ficar chocado com a diferença de cultura e com as coisas simplesmente mais absurdas que você encontra em cada esquina. Algumas vezes topo com um viajante que acabou de chegar na Ásia e reparo na expressão única na face deles de estarem conhecendo essa parte do mundo e suas loucuras. Essa expressão já foi minha mas me esqueço disso. No começo tudo é uma sucessão de surpresa, admiração e estranhamento. Temos alguns medos nada a ver que vão se dissipando. Aos poucos tudo vai ficando cada vez mais normal e parece ser mais difícil se surpreender – embora a Ásia sempre pode conseguir te surpreender, mesmo quando você pensa que já viu de tudo. Quando vê você está cheio de novos hábitos que nunca imaginava ter e se sentindo até um pouco asiático. Esses são alguns que eu consegui listar.

 

Comer com palitinhos é mais fácil do que usar garfo e faca

No Brasil sempre usava palitinhos em apenas uma ocasião: quando ía a restaurantes japoneses e geralmente pedia sushi, sashimi e afins. Nada muito complexo, uma porção única e razoavelmente sólida que eu poderia usar facilmente o hashi. Na Índia não precisei usar muito, a arte era mais aprender a comer com a mão ou então eles te davam uma colher e um garfo para facilitar a vida. Na Tailândia também existe bastante essa opção de garfo e colher, que para mim é mais difícil usar do que os palitinhos. Depois de dois meses na Índia fui para o Vietnã por mais dois meses e lá o hashi é de uso obrigatório praticamente. Foi a minha escola. O mais difícil era comer todo o arroz e acompanhamentos – especialmente se fosse o fried rice, que é o arroz soltinho misturado com carne e legumes. No fim da refeição às vezes entrava em fúria e pedia uma colher para o garçom, ou simplesmente deixava alguns restos de comida que demorariam uma eternidade para eu terminar com o hashi. Ainda me faltava a paciência budista. Sem contar os churrascos – vietnamitas e coreanos principalmente – que você tem que montar tudo sem o uso de garfo e faca. Depois de mais 6 meses na Ásia e em países onde os palitinhos são muito usados, agora posso até fazer malabarismo com eles. Essa dificuldade se tornou mais rara. Um dia me dei o luxo de comer num restaurante ocidental e obviamente me deram um talher ao invés de palitinhos. Olhei para o garçom sem entender nada e suplicando mentalmente o hashi. Levava o garfo a boca com o arroz caindo no meio do caminho. Foi uma vergonha.

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Cada pedacinho dá pra comer com os palitinhos e no final se bebe a sopa

Moto-táxi  é tão (ou mais) usado quanto carro para transporte

Quando comecei a viajar a Ásia não imaginava que esse lugar ía ser tão lotado de motos. É moto em todo e qualquer buraco, geralmente scooters. No Vietnã, o lugar com a maior movimentação de motos que vi por aqui, quase não existe calçada. Não porque as calçadas não estão lá, construídas, mas porque  elas viram estacionamento de motos, principalmente em Hanói. Atravessar a rua é um desafio no qual você se sente um verdadeiro campeão após chegar ao outro lado. Porque o perigo de se machucar feio ou de (Deus nos livre) ir dessa pra pior é iminente. Mas assim como os palitinhos, em algum momento a gente acostuma e vira profissional em atravessar rua. É claro que num lugar como esse o uso de moto-táxi vai ser mais do que comum. Peguei no Vietnã acho que só uma vez por medo do trânsito maluco. Na Tailândia fui relaxando e usando mais. Agora já me acostumei e táxi é só em última instância. Fiquei impressionada quando o dono de um hotelzinho que fiquei se ofereceu para me levar à rodoviária de moto. Eu falei que não dava, já que estava com duas mochilas, uma grande e outra média. Mesmo assim ele quis me levar, se comunicando através de gestos dizendo que não tinha problema. E não é que tudo se ajeitou na scooter? Uma nas minhas costas e outra no espaço entre ele e a direção. Outro que peguei aqui na Indonésia já era um nível a mais. A moto – que era uma moto mesmo e não uma scooter – tinha um compartimento atrás para colocar uma mochila dentro, tipo uma moto de entrega, e a outra eu fui carregando entre eu e o motorista, no maior ajuste. Aqui na Indonésia tem até um app que é como o uber mas para motos, Go-Jek. Uma amiga minha foi de uma cidade para outra em Bali, mais de 2h de viagem, com mochilas e moto-táxi. É, esse meio de transporte acaba sendo um dos mais usados.

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Amostra de como é uma viela no Vietnã

A arte de barganhar virou parte de você

Uma das outras e mais importantes habilidades que você precisa aprender na Ásia é barganhar. E a Índia foi a verdadeira escola dessa arte, já que pra quase tudo você precisa negociar antes e tentar ser o menos explorado possível. Já saí da Índia com esse feeling de que tudo tem o preço errado e você tem que tentar conseguir pelo menor valor que puder – ou até onde a sua paciência aguentar. O nível da barganha é relativo ao quanto você quer o produto. E o tanto que o vendedor abaixa é relativo ao tamanho da sua paciência no momento, ou ao desespero do vendedor para vender. Às vezes eles dão mais desconto por ser o primeiro ou o último cliente, coisas de superstição. A primeira regra é não demonstrar muito interesse pelo produto. A segunda é se mostrar indignado pelo “roubo”, mostrar que sabe que aquele não é o preço. E daí é a sua criatividade que manda. Quanto mais criativo na arte da barganha (juro que é uma arte), mais desconto você ganha. Alguns lugares são mais flexíveis e eles abaixam bastante o preço, outros não se curvam de jeito nenhum e se você quiser muito vai ter que comprar pelo preço do comerciante – bem acima do real valor -, e como exceções também tem aqueles lugares com o preço certo e fixo. E isso serve pra muita coisa: taxis, souvenirs, roupas, ônibus, hotéis, tours, eletrônicos, quase todo utensílio que você puder comprar. Até aí tudo bem. O problema é que barganhar vira uma mania enraizada em alguns viajantes e confesso que aconteceu comigo. Mesmo quando eu já tô cansada de todo o processo exaustivo de pedir por um preço menor, muitas vezes no mínimo pergunto se fazem um desconto, que o preço tá errado, no estilo “vai que cola”. Você percebe que barganhar virou parte do seu ser e isso é porque você está há muito tempo na Ásia quando começa a barganhar por praticamente qualquer coisa, tipo um picolé, como aconteceu ontem. E consegui!

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O mercado de Luang Prabang é um dos mais organizado que já conheci e onde os locais mais te respeitam, sem insistirem para que compre algo. Não dá para barganhar muito e os preços são bem mais altos que o normal. Mas a qualidade é evidentemente melhor também.

Saber diferenciar os asiáticos e suas nacionalidade

Talvez pela grande quantidade de imigrantes japoneses no Brasil, ou talvez pela própria fama do país – assim como a China -, se alguém tem o olho mais puxadinho costumam falar que “você parece japonês”. Se não, que parece chinês. Às vezes mudam a comparação para “oriental”. Ninguém fala que a pessoa parece tailandês, vietnamita, coreano ou filipino. Ou costumam dizer que não conseguem diferenciar um japonês de um chinês e vice-versa. O que é, na verdade, uma dificuldade de diferenciar certos asiático de outros. Assisto The Good Wife, uma série sobre Direito, e num dos episódios eles frisam a dificuldade de diferenciação – especialmente no que se refere ao reconhecimento do autor de um crime, por exemplo – entre pessoas de raças diferentes da sua, comprovado através de uma pesquisa. Bom, sendo isto ou não, agora consigo saber facilmente se alguém é chinês, japonês ou coreano, tailandês ou vietnamita, filipino, malaio ou indonésio. Etc, etc. E, nossa, todos são muitos diferentes uns dos outros. No Brasil já ouvi muito que pareço ter ascendência japonesa ou oriental. Aqui na Ásia, em quase todo canto que vou escuto dos locais mais de uma vez “você parece vietnamita!”, “você parece thai!”, na Malásia em menos de 1h no aeroporto já escutei “ah, brasileira? Mas você parece malaia”. Foi o mais rápido até agora. Tô quase entrando em crise de identidade. Na verdade queria, então, pagar pelas coisas como asiática e não ocidental, como dizia minha amiga brasileira que era comparada o tempo todo a indiana.

Ah, incrivelmente na Indonésia ainda não escutei. Três semanas já.

Costumes locais viram hábitos recorrentes e os seus padrões mudam bastante

Tenho basicamente dois calçados: um chinelo estilo havaianas de uma marca tailandesa e um tênis que uso para fazer trekking. Nas ilhas da Tailândia era super comum você sair com o seu chinelo, deixar em algum cantinho na praia, dançar um pouco, e quando você tá indo embora e vai pegar seu chinelo, bom, ele não está lá. Alguém simplesmente se apropriou dele por ter perdido ou sido afanado como irá fazer comigo. Isso aconteceu comigo umas três vezes, até que em algum momento desisti de ter chinelos. Comecei a andar descalça e na verdade muita gente faz o mesmo. Durou umas duas semanas até que eu cansei de machucar meus pés. Em Koh Tao e Koh Lanta, por exemplo, você não precisa mesmo de chinelos, ainda mais porque sempre precisamos tirá-los para entrar na maioria dos locais fechados na Ásia como uma forma de respeito. Na Tailândia, Vietnã, Laos e Indonésia essa regra é mais evidente. Virou tão comum para mim também que até mesmo quando não tem uma placa pedindo para tirar os sapatos eu já tiro o chinelo no automático. Isso evita ser xingado pelos locais que ficam alarmados com você entrando calçado no local. Lembro também de quando tomei minha primeira Chang, na Tailândia, e ter achado horrível. Agora adoro Chang e Singha na verdade parece um pouco melhor. Pagar $2,00 numa cerveja hoje vejo como roubo – comparado às cervejas de $0,50 no Vietnã -,  e uma comida de $3,0 é como estar dando ao luxo. Sendo que no Brasil esse excesso é o mínimo que se paga por uma cerveja ou comida e isso num lugar acessível. A primeira reação ao ver um banheiro estilo asiático é ficar estático olhando para aquele buraco no chão pensando como você vai fazer aquilo, na maioria das vezes para mulheres, claro. Exceto quando o assunto é outro. Hoje o banheiro asiático não me causa mais repulsa e enfrento aquilo sem pensar muito. Ah, carregar um papel higiênico na sua bolsa/ mochila é uma boa dica para viajantes na Ásia, já que aqui eles se limpam com uma água parada dentro de um recipiente gigante, sendo um pouco mais difícil de encarar. Mas o uso da ducha ao lado do vaso já é recorrente para mim. Eu costumava detestar comida muito apimentada, comia só alguns pratos levemente apimentados e sofri muito quando cheguei na Índia, naquela terra onde a pimenta é o principal tempero e se mistura com mil outros no mesmo prato. Aos poucos, fui gostando de pimenta cada vez mais. Nas minhas últimas semanas na Tailândia notei que eu estava começando a colocar pimenta no meu prato e a enfrentar certas refeições que eu não conseguiria terminar de comer no passado por estar tão apimentado. Tô achando a comida sem graça na Indonésia pela falta de pimenta. A expressão “same, same, but different” é parte do seu vocabulário. São tantos novos hábitos adquiridos e padrões alterados que é difícil listar.

Nesse mês eu fiz 8 meses na Ásia. E por mais que eu liste algumas coisas que possam ter mudado no meu estilo de vida, a principal mudança é interna e o que causa essa mudança é ficar tanto tempo longe da sua zona de conforto se arriscando e aventurando por aí. Não vou dizer que é fácil, mas sou muito mais feliz com a pessoa que estou me tornando agora do que com aquela que costumava ser. Recomendo absurdamente a todo mundo, respeitando sempre os seus limites – a Ásia, por exemplo, e da forma que viajo não é pra qualquer um – mas também atravessando aqueles limites que você insiste em ter e não passam de uma auto-restrição sem sentido.

Saia, se arrisque, viaje, se liberte, se conheça, se perca, se surpreenda.. Se joga! Viva!

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Quando fiquei presa em Kuala Lumpur

Pra quem não sabe, Kuala Lumpur é a capital da Malásia. Desde o começo na minha viagem para o sudeste asiático fiquei pensando se deveria ou não visitar a Malásia (na verdade ela estava no meu roteiro original que abri mão após ter amado o Vietnã e em seguida estendido a minha viagem). As opiniões eram contraditórias; uns amavam, outros odiavam. Difícil haver meio termo. Até agora não decidi se devo viajar a Malásia ou não, já que conhecer apenas uma cidade por alguns dias não é realmente conhecer o país. Mas Kuala Lumpur acabou aparecendo no meu roteiro. KL é, assim como Bangkok, ponte aérea para muitos países. Decidi ir para indonésia esse mês ao invés de ir para o Camboja, simplesmente porque estou amando a vida de praia demais pra deixar ela agora. Como estava na Tailândia, era mais barato comprar dois tickets de avião de companhias aéreas diferentes – um até KL e outro de KL para Bali – ao invés de voar diretamente da Tailândia para Bali. Consegui os dois tickets para o mesmo dia. Perfeito! Tudo certo com o voo de Krabi (Tailândia) para Kuala Lumpur. Estava empolgada para mudar de país, conhecer a tão bem falada Indonésia e continuar minha expedição em busca de ilhas paradisíacas. Esperei algumas horas no aeroporto até o próximo voo. Ok. Uma hora de atraso. Nem me estressei, só pensei que já estava na hora de algum  atraso, pois incrivelmente todos os 9 aviões que embarquei nesses 8 meses viajando foram super pontuais e sem qualquer problema. Não imaginava o que estava para acontecer. Fiquei aliviada quando entrei no avião da Malindo Air (companhia de low cost da Malásia) e vi que tinha televisão em cada poltrona e poderia me distrair durante as 3h de voo com alguma coisa. A seleção de filmes era pouquíssima – sete filmes de Hollywood, outros quatro de Bollywood e alguns chineses! – mas melhor que nada. Talvez. Terminei de ver um filme bobo com a Cameron Diaz e comecei a ver um filme de Bollywood pra matar a saudade da Índia. Foi aí que ouvimos o anúncio do piloto. Um vulcão havia entrado em erupção na ilha de Lombok na Índonésia e as cinzas de tal vulcão estavam sendo sopradas em direção ao aeroporto de Bali, e por motivos de segurança, o aeroporto de Bali seria fechado até segunda ordem. Tivemos que dar meia volta em direção a Kuala Lumpur. E aí foi aquele caos para cancelar o visto de saída da Malásia, trocar passagens, pegar a bagagem novamente. Diferente de quase todo mundo que estava no avião, decidi trocar a passagem para quinta (era uma noite de terça-feria) ao invés de tentar embarcar no próximo voo disponível, na manhã de quarta-feira. Achei mais seguro e se mostrou uma decisão acertada, já que no voo da manhã acabou acontecendo a mesma coisa da noite anterior anterior (voltar no meio do caminho). Com toda a enrolação, acabei tendo que dormir no aeroporto (pela primeira vez!) pois estava com medo de chegar de madrugada sozinha via transporte público em algum bairro de KL. O aeroporto é bem distante da cidade e os táxis eram muito caros, além de inseguros pelo horário. Após pouquíssimas horas de sono num chão congelante, no outro dia peguei um ônibus, fui para Chinatown -o bairro onde os mochileiros costumam ficar -, e parei no primeiro hostel que encontrei. Estava cansada demais para procurar algo melhor. Meu dia se resumiu a dormir e pesquisar o tempo todo sobre o status do aeroporto de Bali. Estava com medo de ir em vão ao aeroporto na próxima manhã. E não, eu não estava animada para ver Kuala Lumpur, uma capital nova, um país novo. Primeiro porque o clima estava péssimo. Segundo porque eu estava sem energia. E terceiro e principal, eu sabia que voltaria a KL depois da Indonésia e teria que ficar uns dias na cidade esperando meu visto chinês sair. Na noite de quarta descobri que meu voo para o dia seguinte tinha sido cancelado, pois o aeroporto de Bali estava mais uma vez fechado devido às cinzas do vulcão. Consegui remarcar para domingo – e seria minha última tentativa de ir para a Indonésia. Estava me sentindo completamente contrariada. Meus pais repetiram para mim diversas vezes durante essa situação que era normal, que eu não deveria me estressar e sim ficar animada por estar conhecendo um novo país. Que contratempos ocorrem. Eu sabia que eles estavam certos. Mas meu cérebro estava em pane. Todo o meu ser estava imaginando que continuaria no clima paz, amor e natureza das ilhas da Tailândia, que eu já estava há um mês e meio, e de repente me vejo numa cidade enorme, cheia de prédios, poluição, gente, informação. Mas o problema pra mim nem era tanto esse. O mais difícil foi precisar tomar várias decisões fundamentais sozinha, num curto espaço de tempo, sem ninguém para te auxiliar ou discutir ideias.  Fiquei sem sair de chinatown por dois dias – e só saía do hostel para comer – até que percebi o quanto estava sendo estúpida. Ou talvez meu cérebro se adaptou. Ficar contrariada não iria mudar em nada a minha situação. Cada dia a mais num país novo é uma chance de saborear mais da cultura, aprender sobre a história, ver algo diferente e talvez aquela coisa pela única vez na vida. E resolvi abrir mais os olhos para essa cidade. Sinceramente, diferente do que muitos acham, achei Kuala Lumpur incrível. Nunca vi tamanha diversidade cultural na minha vida. Muçulmanos, hindus e budistas misturados nas ruas. Templos hindus, budistas (de diferentes vertentes) e mesquitas nas mesmas proximidades. Comidas que contém ao mesmo tempo influências indianas, chinesas e tailandesa. Ou excelente especialidade em cada uma dessas culinárias e outras. Algumas mulheres usando a burca ou o saree. Outras de mini short. Etnias evidentemente distintas falando a mesma língua. Ou línguas diferentes sendo cantadas nas ruas. Sem contar a cultura típica dos nativos malaios, que na verdade vem sendo cada vez mais deteriorada com o passar dos anos. Todos no mesmo lugar, todos no mesmo país, na mesma cidade. E rodeados por prédios ultramodernos, metrôs super rápidos e todas as marcas ocidentais – e ainda mais! – que cansamos de ver por aí. Assim como São Paulo tem o bairro da Liberdade e o Bixiga, Kuala Lumpur tem a Little India, Little Korea e Chinatown. A Malásia também foi colonizada pelos britânicos e tem o inglês como segunda língua (facilitando a vida dos mochileiros!). Ufa! Isso tudo é muita informação. E não poderia deixar de ser mais fantástico: vários povos diferentes reunidos e convivendo, tentando tocar um país pra frente. Acredito que alguns conflitos e rivalidades devem ocorrer, mas ainda fico encantada com um país abrigando tanta gente diferente. A Malásia é uma das economias que mais crescem na ásia e uma das maiores do sudeste asiático. A moeda local atualmente é um pouco mais forte que o Real. Entretanto, continua barato viajar por lá e a comida é super em conta- e deliciosa! Ah! Cheguei bem na época do festival hindu Diwali, conhecido com o festival das luzes. A cidade toda estava sendo efeitada. Nesses dias em KL acabei vendo apenas Chinatown, o Central Market e as Petronas Towers (as maiores torres gêmeas do mundo). Mas quando voltar planejo ver tudo o que puder. E quem sabe viajar pela Malásia?

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ps: CONSEGUI chegar em Bali, finalmente! 20 minutos depois do meu avião pousar o aeroporto fechou novamente. Se antes eu me considerei azarada por não ter marcado um voo antes para Bali, hoje me considero sortuda por ter escolhido o de ontem. Acho que o que for pra ser acontece, né?

ps 2: estou finalizando esse texto – que na verdade escrevi quando cheguei na Indonésia, há mais de uma semana – na ilha de Gili Trawangan. A ilha fica pertíssimo de Lombok e posso avistar daqui a silhueta do Mt Rinjani, o vulcão que deu uma atormentada na vida de muita gente e continua espalhando suas cinzas pelos ares. O estresse que ele me causou 10 dias atrás agora se transformou numa espécie de fascínio – nunca estive perto de um vulcão ( ainda mais em erupção) antes. Todo dia me lembro de olhar em direção a Lombok e ver como está aquela neblina sob a ilha – que eu teimo em pensar que são as cinzas pairando. Talvez sejam.

O mundo perdido e fabuloso de Myanmar.

Sonhava em conhecer Myanmar desde que vi fotos mágicas deste país no facebook de um colega. Quando decidi vir para a Ásia, e quando comecei a planejar minhas viagens por aqui, a ída ao Myanmar parecia cada vez mais próxima e possível, mas ainda assim era difícil considerar realmente esse hipótese. Primeiro porque eu estava na Índia e as passagens de lá para Myanmar eram caríssimas. Valia mais a pena financeiramente conhecer países mais viáveis de se voar, como o Vietnã e Camboja, e foi por isso que optei. Como já contei aqui, acabei estendendo minha viagem pelo sudeste asiático e mais uma vez a possibilidade de ir para o Myanmar bateu na porta. Ainda assim continuei hesitando pelo mesmo motivo, o financeiro. Bom, deixe-me contar um pouco sobre a história desse país fabuloso. O Myanmar – ou Burma/ Birmânia, antigos nomes da atual República da União de Myanmar – também possui o budismo como principal religião e foi colonizado pelos britânicos durante o século XIX e metade do século XX. Teve sua independência em 1948, após a segunda guerra mundial (como muitos países da Ásia), e desde então sofre diversas reformas políticas na tentativa de implementar um regime socialista. Desde 1962 o país é controlado pelos militares e foi durante décadas fechado para o turismo. Recentemente Myanmar abriu as portas para o turismo mas ainda possui algumas zonas restritas onde os turistas não podem visitar. Após intensos protestos e repressões militares, em 1991 o país teve a primeira eleição direta. Entretanto, não surtiu efeitos, pois os militares, descontentes com a vitória da principal líder da oposição, Aung San Suu Kyi, arranjaram alguma desculpa para anular as eleições. Em 2011 foi instalado um governo civil, mas os militares até o momento não se afastaram realmente do poder e das principais decisões do país. Aung San Suu Kyi é reverenciada em Myanmar pela sua luta contra a ditadura, clamando a volta do regime democrático, e tem sido mantida em prisão domiciliar desde 1991 por esse motivo. Visitando um pequeno museu que está aos cuidados de uma senhora com sangue real – parte da realeza de Hsipaw, integrante do reino de Shan, que era um estado autônomo de Myanmar dissolvido após o golpe de estado e teve seu príncipe e líder supostamente assassinado pelos militares – pude saber um pouco do atual estado político pela conversando com essa “princesa”. Aung San Suu Kyi é casada com um britânico e possui um enteado da mesma nacionalidade. Após mudar a constituição do país, os militares proibiram que qualquer pessoa que tivesse marido, filho ou enteado de outro país pudesse assumir o cargo de chefe de governo. Uma tentativa direta de barrar a líder da oposição de assumir o poder. Ainda com barreiras enormes para chegar ao governo e efetivar mudanças em Myanmar, e apesar do perigo de continuar no país, Aung San Suu Kyi preferiu continuar em prisão domiciliar ao invés de partir para o Reino Unido onde seu marido e filhos se encontram. A esperança do povo de Myanmar é de que o partido da oposição seja votado, e, assim, chegando ao poder, altere a constituição (cujo texto é um absurdo em si, prevendo porcentagem de cadeiras para militares no congresso, por exemplo) a fim de possibilitar Aung San Suu Kyi ser eleita pelo povo, que é em sua maioria à favor de sua vitória. Em novembro serão as próximas eleições e já estou torcendo junto com o povo de Myanmar pela real mudança de regime no país! Pelo fato do país só ter sido aberto para o turismo há pouco tempo, e pelo controle massivo dos militares sob as atividades turísticas, viajar para o Myamar é muito mais caro do que deveria ser. Os preços de hotéis, tours, alugueis de scooters, taxis e ônibus são exorbitantes se comparados ao verdadeiro custo de vida do local. Além disso, há o valor de vistos e passagens para chegar até o país. Isso, para mim, que estou viajando com um orçamento pequeno, é desanimador. Tentei – e na verdade cheguei a – desistir desta viagem diversas vezes. Mas quanto mais me aproximava da fronteira com o Myanmar, mais a vontade de ir aumentava. Principalmente pela vontade de ver algo bem diferente dos outros países do sudeste asiático, que possuem uma infraestrutura turística cada vez mais bem implementada. Durante meu voluntariado na Tailândia, me rendi e decidi ir ao Myanmar logo depois, mas passando bem menos tempo do que normalmente passo nos países que visito pelo custo da viagem. Os vôos estavam mais baratos que imaginava e após minha corrida em Bangkok para emitir um novo passaporte e conseguir o visto para o país, reservei minha passagem. Exatamente 10 dias, era isso o que eu teria. Também diferente do que realmente faço, teria que ser bem organizada e controlar exatamente os dias que passaria em cada local. E foi isso que fiz. Cheguei em Yangon, a maior cidade do país, de manhãzinha – o fuso horário, 30 minutos antes de Bangkok, me favoreceu um pouco – e reservei apenas um dia para conhecer o local. Myanmar já me impressionou nos primeiros momentos. Parecia que, de certo modo, eu tinha voltado para a Índia. Não sem razão, já que existe um grande número de pessoas de origem indiana no país, sendo a culinária e alguns costumes aderidos à vida cotidiana da população. Aliás, Yangon e algumas outras cidades cheiravam como a Índia, aquela mistura de especiarias únicas no ar. Também tradicional como a Índia. As mulheres usam saias até o joelho, cobrem os ombros, e no máximo dão as mãos aos seus namorados. Muito dos habitantes, e principalmente as mulheres, usam um produto natural de cor amarela no rosto. No começo achava que era algo religioso, mas é apenas um ingrediente “secreto” para deixar a pele mais bonita e proteger do sol.

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Thanaka, o produto que as mulheres birmanesas levam no rosto.

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Senti Myanmar, de certa forma, parada no tempo. Comentei com uma colega que achava que Yangon lembrava Cuba, embora nunca tivesse ido a Cuba. Ela, que já esteve em Cuba, compartilhou do mesmo pensamento, mas ressaltou que Cuba tinha um cenário bem mais bonito. Os prédios eram bem rústicos, mas de uma forma desgastada. Quando vi os cinemas da cidade, ainda com aqueles letreiros cheio de luzes, mas que mal se acendiam, e um “bilheteiro” vendendo ingressos na porta com uma maquininha, de um tempo que na verdade eu nem era ainda nascida, fiquei completamente abismada. Parei durante longos minutos na frente de um desses cinemas e fiquei tirando fotos boquiaberta.

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Era tanta informação que mal sabia para onde olhar. Ou para os prédios. Ou para os ônibus de outros tempos lotados e caindo aos pedaços. Ou para os homens que vestiam saia. Continuei meu passeio no sol fervendo de Yangon. Logo vi o moleque Ney jogando bola na calçada. Entre prédios do século passado, numa avenida movimentada por carros simples e velhos. É, o futebol, mesmo com toda repressão do atual governo, chega até o país. Assim como a coca-cola, um dos poucos produtos ocidentais que pude ver no Myanmar. A camisa do Barcelona (geralmente com o nome do Neymar, e não do Messi, juro) e do Brasil também são super populares na Ásia, e por algum motivo, a do Brasil é ainda mais em Myanmar!

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Olha por onde anda o moleque Ney!

Fui para a estação de trem e a rusticidade também se mostrou lá. Velho. Sujo. Tradicional. Ainda com marcas da colonização inglesa na arquitetura. Toda essa atmosfera de Yangon me envolveu de uma forma que não sentia desde que visitei Hanói, no Vietnã, pela primeira vez. Talvez ainda mais forte. Depois de um  longo dia dedicado à exploração a pé e à fotografia, fui para a agência de ônibus esperar pela “van” que iria me levar à rodoviária. A van na verdade se mostrou ser um carro antigo, sem ar condicionado, com outras 5 pessoas dividindo o espaço comigo. Isso explica a diferença de Myanmar para os outros países do sudeste asiático tão bem que só quem visitou a região poderia entender. Fui para o ponto alto de Myanmar, Bagan, logo de cara, por razões de rota e para ter tempo de ficar mais se eu quisesse. Mas chegando lá, achei que apenas um dia seria necessário, e realmente acho que foi para quem estava com o tempo apertado como eu. É difícil colocar Bagan em palavras. Bagan tem um complexo formado por milhares de templos centenários, alguns milenares, se não me engano, numa curta distância um do outro. A visão que o topo de alguns templos proporciona é simplesmente fantástica, principalmente na hora do amanhecer e do pôr do sol. É mágico. É surreal. De outro planeta. Pelo que pesquisei depois, pude saber que Bagan foi uma capital de estudos budistas durante muitos e anos, mesmo com algumas mudanças de impérios. Infelizmente, com um abalo sísmico ocorrido nos anos 70, a maioria das imagens grandiosas de buda presentes dentro dos templos foram destruídas, assim como alguns detalhes nas paredes. Passeamos – Maria, espanhola que conheci no ônibus para Bagan, e eu, duas Marias. Clichê latino – o dia todo pela cidade com uma bicicleta elétrica que nos fazia rir o tempo todo. No outro dia madrugamos para assistir o amanhecer. Por pouco perdíamos. Deixo a imagem como uma auto-explicação de Bagan.

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Fabuloso mundo perdido. Conto de fadas.

Após o amanhecer partimos correndo para o próximo destino, Kalaw, cidade famosa por fornecer um trekking – vício adquirido na Ásia – de alguns dias para Inle Lake, outro dos principais pontos turísticos de Burma. Assim que chegamos fechamos o tour com a Sam’s Family, agência mais famosa da cidade mas que ainda possui um preço camarada, e no outro dia já partiríamos para o trekking. Tivemos a sorte de fazer a caminhada com um grupo multi-cultural super legal. Duas médicas francesas recém-formadas, Auriene e Emmanuelle, um inglês, Richard, um alemão, Lucas, além de Maria, a espanhola. O trekking foi mais longo do que aquele que fiz na Tailândia, em contrapartida foi bem mais fácil. Três dias e duas noites pelos campos de Myanmar. Acho que nem preciso dizer que foi fantástico. Não só pelas paisagens e pela possibilidade de ver a cultura local de perto, mas também pelo entrosamento do grupo.

Pude constatar, mais uma vez, a rusticidade do país, pelo modo de produção local. Não vi nenhuma maquina durante o percurso, mas vi muitos trabalhadores arando a terra com boi ou búfalo, assim como mulheres perdidas no meio de plantações colhendo algum produto. Dormíamos em casas de algum dos locais, sempre bem limpas e com um fino colchão para passarmos a noite – que depois de 8 horas de caminhada nem nos preocupávamos com a espessura -, e comíamos uma comida deliciosa preparada pela nossa guia. Não sei se a fome deu o tempero da delícia ou se realmente ela era uma boa cozinheira. Fomos sempre bem recebidos pelos locais, que eram na verdade bastante tímidos.

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Meu grupo de trekking nas sempre lindas plantações de arroz.

No terceiro dia chegamos em Inle Lake exaustos, mas acordamos cedinho no próximo dia para explorar o local de bicicleta. Passeamos por um resort com águas termais, templos em ruínas e um vinhedo com direito a degustação. Voltamos para a cidade após uma breve tempestade – todas as chuvas que presenciei em Myanmar não duraram mais de 10 minutos – e o grupo teve que se despedir. Segui com Maria para Mandalay, a capital, e os outros seguiram destinos diferentes. Mais tarde tive a sorte de encontrar Emmanuelle aqui nas ilhas da Tailândia, onde estou no momento.

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Travessia de barco em Inle Lake.

Tive apenas um dia inteiro para conhecer Mandalay. Faltavam apenas 3 dias para eu ir embora e não queria perder tempo em cidade grande. Estava cansada e sem empolgação para conhecer muita coisa naquele calor (por isso não gosto de viajar com o tempo apertado, para mim é muito exaustivo). Alugamos uma scooter que facilmente negociei com um mototáxi super gentil – algo inusitado até então -, pois o hostel que estávamos alugava por um preço muito alto. No Myanmar, diferente dos países vizinhos, algumas coisas ainda funcionam na base da confiança e o motorista nos alugou a moto sem qualquer garantia de que a retornaríamos. Mandalay não me causou grande impressão, talvez porque não tivemos tanto tempo para explorá-la. Visitamos alguns templos – um deles, no topo de um morro, simplesmente maravilhoso – e fomos ver o pôr do sol numa famosa – e grande! – ponte de madeira, mas que na verdade acabamos perdendo pela dificuldade de se trafegar na cidade. Decidi que meu último destino seria Hsipaw, apenas para ter a experiência de viajar de trem no país, e para ver o viaduto de Goteik, concluído pelos ingleses em 1900 e na época o maior do mundo. Seriam em média 15 horas de trem e a passagem de primeira classe custou apenas 3 dólares! Bem, a primeira classe estava longe de ser como a primeira classe em trens de outros países. A poltrona foi retira de algum antigo avião – pelo estilo da cadeira pude notar que era bem antigo mesmo -, o vagão era sujo e com alguns ratinhos (!!!) zanzando por lá. Sem ar condicionado, claro. O trem balançava tanto que parecia que ía sair dos trilhos (e pelo o que um dos trabalhadores do trem me contou, às vezes descarrila sim, mas ninguém costuma morrer). É o preço que se paga. 3 USD. A paisagem em si não era grande coisa, mas vale pela experiência, e principal pelo viaduto, que é simplesmente fabuloso.

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Minha criança de 3 anos (o peso da minha mochila) e eu ❤

O impressionante viaduto que atravessei. E não caí!

O impressionante viaduto que atravessei. E não caí!

Dormi em Hsipaw e no outro dia a noite já partiria de volta para Yangon a fim de pegar o avião e regressar a Bangkok. O tempo que eu tinha em Hsipaw apenas me permitiu conhecer um pouco dos arredores de bicicleta. Tive uma refeição fantástica num restaurante orgânico, visitei uma antiga casa da antiga família real de Hsipaw, onde conversei com aquela senhora-princesa, e também alguns templos super antigos que eles intitulam de Little Bagan (pequena Bagan).

Confesso que 10 dias foi apertado. Havia pelo menos mais dois lugares que valiam muito a visita. Mas preferi ter feito isso agora do que deixar para um incerto depois. Principalmente porque o país está ficando cada vez mais turístico, e para mim é muito importante conhecer a cultura do local em sua autenticidade, quando possível. É o mais impagável, de certo modo, e intransferível que posso ter viajando para terras tão distantes. São nesses momentos que sinto com mais profundidade a massa de conhecimento se alargando em minha mente e também a minha visão se expandindo e adaptando. Esse tipo de estimulo é o principal êxtase que posso ganhar viajando. E é para ter este tipo de experiência e sentimento que atravessei dois oceanos. Infelizmente algumas vezes o excessivo fluxo de turismo rompe sim a autenticidade do local, das suas tradições, e a genuinidade do povo, apesar de também poder trazer melhorias estruturais para o país. Então conhecer Myanmar em seus primeiros momentos de abertura é uma sorte que valeu bastante o sacrifício financeiro e a correria não muito usual. A população ainda não sabe lidar direito com o turismo, o padrão de hospitalidade é ainda muito precário e não há tantas facilidades, mas o nível de inglês dos locais me surpreendeu e as pessoas conseguem ser ainda mais gentis do que nos países vizinhos. Não imaginava que Myanmar ía chegar tão cedo pra mim – 1 ano e meio desde que soube do lugar -, mas estou satisfeitíssima que aconteceu.

Sobre voluntariado e Fernando de Pessoa. E o que uma coisa tem a ver com a outra.

Sou apaixonada por Fernando Pessoa desde quando precisei ler “ Poemas Completos de Alberto Caeiro”  para a Fuvest. Não entendia direito. Mas achava bonito e me inspirava mesmo assim. Logo comecei a ler tudo quanto é obra do Pessoa. Entretanto, somente hoje talvez tenha chegado mais perto de entender a primeira obra que me despertou a paixão. Compreendi mais a exaltação à natureza e ao cultivo da vida simples presentes nos versos. Antes, o que via como fuga e idealização, agora vejo como um certo encontro consigo mesmo e o mundo em essência.

O guardador de rebanhoso pastor amoroso.

Ainda não sei entendi. Mas após duas semanas de uma experiência completamente nova, os versos do guardador de rebanhos começaram a reaparecer na minha mente.

Cheguei em Tha Ma Fai Wan, uma vila perto de Chaiyaphum, nordeste da Tailândia, para fazer um trabalho voluntário ainda um pouco incerto. Achei esse projeto no site Helpx, uma rede que auxilia o contato entre viajantes e pessoas que necessitam de algum tipo de ajuda e estão dispostas a fornecer comida e acomodação em troca de serviços. Os trabalhos geralmente são simples, como pintar paredes, trabalhar em hostels, jardinagem, ensinar inglês, cuidar de animais, etc. E podem vir com algum benefício, como aulas gratuitas de meditação, culinária ou yoga, por exemplo.  Muitas pessoas viajam o mundo através de sites como esse, já que no fim é uma ótima opção para economizar dinheiro e ter uma experiência mais profunda da cultura local. Foi a primeira vez que utilizei o Helpx. O projeto envolvia três coisas que eu estava louca para experimentar: dar aulas de inglês, jardinagem e meditação. Ficava numa região não turística e cercado pela natureza. No fim acabei trabalhando como professora de inglês e atendente num café.

Quando cheguei o meu host (pessoa que recebe os voluntários) já estava me esperando na rodoviária de Chaiyaphum, às 4h da manhã. Seu nome era Isara, um ex-monge que largou a roupa laranja/ marrom após 8 anos de “exercício”. Isara é bem peculiar para um ex-monge. Cheio de hábitos mundanos. O mais engraçado destes é o wisk com ervas que ele toma afirmando que é para tratar da coluna. Bom, talvez seja por isso que ele desistiu daquela vida. Já faz alguns anos que ele recebe voluntários para trabalhar de alguma forma na região. Ele tem uma propriedade que chama de “jardim”, com uma casa de concreto e outras menores feitas de barro, cercadas de uma mini floresta, mas na verdade mora em outro lugar, numa casa que aluga, e foi onde eu escolhi ficar. A casa é simples, não tem internet nem fogão para cozinhar, dormia num colchão no chão com algumas aranhas me espiando do teto. É, aprendi um pouco a conviver com as aranhazinhas. No mesmo dia fui conhecer a escola onde iria voluntariar. Ficava dentro de um templo, um espaço até legal para se ensinar, imaginava algo mais precário. É uma escolinha pública para crianças de até 4 anos, uma espécie de jardim de infância. Apesar desse espaço legal que eles têm para lecionar e da quantidade fantástica de materiais fornecidos – desde cadernos até refeições todos os dias – a escolinha tem uma série de problemas estruturais que limitava meu papel ali e qualquer aprendizado real das crianças, seja em inglês ou tailandês. A separação entre as crianças mais novas e as mais velhas é muito deficiente, principalmente porque não há divisórias no espaço, sendo as aulas próprias para os mais velhos prejudicadas por conta disso. O preparo ou instrução dos professores também estão longes do suficiente. E o que tornou o meu papel mais complicado ali era o fato deles não falarem nada de inglês, talvez apenas uma palavra ou outra. Difícil me aliar aos professores para tentar uma atividade nova ou transmitir aos alunos algo que gostaria. Nunca ensinei nada na vida, então também não possuo didática alguma. Mas com a criatividade e o esforço mútuo, conseguimos ao fim de duas semanas  ensinar os números, partes do corpo, certos animais e letras do alfabeto para algumas das crianças. Também gravei alguns vídeos num DVD e acabou fazendo o maior sucesso – e o melhor, sendo efetivo!

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Meus alunos FOFÍSSIMOS! Um ou outro diabinho, mas até os diabinhos eram fofos.

É claro que duas semanas não é tempo suficiente para qualquer aprendizado real. Mas acho que para essas crianças que dificilmente vão ter um professor que saiba falar inglês (Isara contou que nas escolas públicas da região nenhum professor de inglês realmente sabe a língua), qualquer ajuda é melhor do que nenhuma. Tenho pra mim que o melhor de tudo é estar ali. Minha presença ali – ou a de algum outro voluntário. Dar atenção e amor para essas crianças tão carentes, compartilhar algum conhecimento com a instrução que felizmente pude ter, ajudar os professores que já estão sobrecarregados, e se tivermos sorte, fazer com que algumas crianças aprendam um pouquinho da língua inglesa! Mas acho que nada se compara ao que tive de volta. Só eu sei o prazer que era ouvir toda manhã “good morning, teacher!” (E pensar que não me atrevia a cogitar ensinar inglês por insegurança, não só virei “professora” como acabei me deliciando com esse “bom dia”…), ver algum aluno concentrado querendo aprender com você, os dedinhos deles contando de 1 até 10, ou gestos de carinho te direcionados. Sem contar as frutas deliciosas que os professores compartilhavam comigo, de vez em quando um café ou um almoço, sempre dispostos a oferecer tudo o que podiam!

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Mocha preparado por mim! hihi

E assim eram minhas manhãs. Ficava com os alunos até a hora da soneca. Depois do almoço eu ia para o café do vizinho e ajudava ele e sua esposa a preparar as bebidas. Eram dois enfermeiros que tinham esse café frequentado principalmente por alguns poucos clientes fiéis. Passava a tarde lá no caso de alguém aparecer enquanto eles trabalhavam. Um desses clientes fiéis era o Malcom, um inglês radicado na Austrália beirando os 70 anos que ia lá todo dia beber o seu “latte”. Ele sempre ficava cerca de 1h no café conversando comigo, desconfio que era pra falar com alguém diferente da sua esposa tailandesa, já que ninguém na vila sabia inglês. Acho isso porque pra mim era o mesmo, ele era a única pessoa que eu podia trocar mais palavras! O papo, na verdade, era sempre bom, outro motivo para as longas conversas. Também foi maravilhoso trabalhar nesse lugar. Quem me conhece sabe que sou apaixonada por café, então foi uma delícia aprender a fazer vários drinks e a mexer nas máquinas. Os donos são algumas das pessoas mais gentis que já conheci na vida! Todos as noites me ofereciam jantar e às vezes me levavam para passear em templos, no mercado local ou para ver o pôr do sol. O melhor desses passeios foi um jantar na cidade num restaurante koreano ma-ra-vi-lho-so. No serviço me deixavam tomar quantos cafés e sorvetes eu quisesse! Fico feliz que não quebrei nada enquanto trabalhei lá. Hahaha O café era uma gracinha e com um nível muito bom para o local.

Um parêntese aqui: ainda acho incrível a capacidade que temos de nos conectarmos tão a fundo com pessoas cuja comunicação é tão precária de se formar. Eles falavam inglês bem superficialmente.

Drinking buddies e a cerveja com gelo.

Drinking buddies e a cerveja com gelo.

E assim terminava meus dias. O acesso à internet era bem raro, às vezes os donos do café deixavam um celular para eu usar como ponto de acesso a fim de dar notícias e minha mãe poder dormir tranquila! Um dia antes de eu ir embora instalaram internet de fibra óptica no café. Os donos disseram que era pra ver se eu não ia embora! haha

Todos os dias dormia e acordava cedo, até porque não tinha muito o que fazer. Às vezes lia um livro ou assistia algum filme no computador. Também consegui escrever bem mais e ter algumas ideias. Algumas vezes acabava bebendo um pouco com os amigos de Isara (o ex monge) e ele, o que foi uma experiência bem peculiar. Pra começar, eles me serviam cerveja com gelo, e eu bebia eternamente sem me sentir qualquer coisa embriagada. Acho que eles sabiam falar só uma dúzia de palavras em inglês – como todos –, então eu ficava viajando na maionese tomando minha cerveja com gelo enquanto eles conversavam, riam ou discutiam sem eu entender nada.  Mas sempre me tratavam super bem, pagavam as cervejas e recitavam como um mantra os jogadores de futebol brasileiros mais famosos. Ah, uma coisa bem comum nessa vila é a troca/ venda de pingentes com a imagem buda. Alguns são bem antigos e vale uma boa grana.

Depois de uns dias um voluntário inglês chegou para trabalhar com jardinagem. Pude ter uma companhia para tagarelar e explorar mais os arredores, que eram também cheios de plantações de arroz, seringueiras, morros e umas rochas antiquíssimas. Quase todos os dias terminavam com um pôr do sol incrível. Na última semana comecei a comer algumas vezes no templo com os monges. Eles almoçam e após a  refeição o resto da comida é oferecida para quem quiser. Geralmente tem alguns grupos de mulheres que sempre vão lá (acho que elas preparam a comida) e almoçam o resto da comida – quase intacta. Eles chamam esse resto de holy food (comida sagrada). Num desses dias que almocei no templo, pude ter aula de meditação com um dos monges!DSC_0975

Esses foram, de forma sucinta, meus 15 dias numa área remota da Tailândia. Ensinando inglês, servindo cafés, sem internet, dormindo no chão, comendo o que me oferecessem, vendo pores de sol, passeando de moto, conhecendo pessoas locais, lendo, escrevendo, tirando foto. O lugar não tinha nada de especial em relação aos outros que já visitei, e ainda assim essas duas semanas foram mais felizes do que a maioria das semanas que tive até então. Sem qualquer excesso ou luxúria, consegui ter uma felicidade mais genuína, mais natural, praticamente concentrada na humildade e doação. Foi difícil ir embora, me despedir das crianças (já não gostava nem de passar o fim de semana longe delas…) e dos donos do café. Já senti falta do sossego ao voltar para Bangkok – que foi minha primeira parada após a Índia –, cheio de informações, superficialidades estampadas em cada prédio, trânsito, barulho, poluição.

Não é tão fácil adentrar completamente na cultura alheia, como eu fiz, com raras coisas que te remetam ao mundo no qual foi criado. Mas o aprendizado que vem depois é um dos presentes que a saída da zona de conforto te proporciona.

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Um dos vários pores do sol belíssimos que pude presenciar.

Tudo nessa vila parecia mais autêntico. As pessoas extremamente gentis – bem diferente da rudeza típica dos tailandeses das zonas turísticas –, com frutas exóticas crescendo nos jardins das casas, profissões simples, sorrisos sempre desenhando o rosto de cada um. Essa é a Tailândia que eu vou buscar ter como lembrança. Gentileza e doação são atos que tenho procurado enraizar em mim, e descobri na prática os seus benefícios. E a imagem do Guardador de Rebanhos, poema de Alberto Caeiro (pseudônimo de Fernando Pessoa), e toda a essência de sua obra, veio à minha mente já nos últimos dias em Tha Ma Fai Wan, numa daquelas tardes de calmaria, com o céu cor-de-rosa. Compreendi o berço de repouso e identidade que é a convivência com a natureza. Compreendi o reconhecimento que surge no cultivo da simplicidade dos sentidos. E compreendi que o questionamento excessivo diário nada mais é do que absoluta perda de tempo. Salve Pessoa, que soube destrinchar toda essa plenitude em seus versos!

Ps: Não pensem que virei budista e natureba, quem me dera, o mundo material não é fácil de se largar assim! haha

Welcome to Thailand!

Nesse ponto me deparo com duas Tailândias – aquela das ilhas, dos templos, dos elefantes. E a outra, a Tailândia escondida, que quase ninguém vê e sabe que existe.

Cheguei empolgada nesse país. Finalmente não precisava de um visto para entrar, e poderia ficar 3 meses sem pagar qualquer quantia. No Vietnã, por exemplo, o valor para estender meu visto foi determinante (e de stress!) para que eu decidisse ir embora. Sinto que aqui posso ter experiências mais diversificadas também. Experimentar o lado um pouco mais ocidental do sudeste asiático em Chiang Mai e Bangkok. Explorar as montanhas e a floresta tropical. Ter, finalmente, minha primeira experiência de voluntariado. E, obviamente, relaxar, também pela primeira vez nessa viagem, em praias paradisíacas. Somente tinha estado em Bangkok por dois dias até então. Comecei pelo norte, que prometia ser menos turístico, mas ainda assim fiquei impressionada pela quantidade enorme de turistas na região. Outra surpresa foram as paisagens. O norte do país é cercado por serras, cachoeiras e plantações de arroz. O cenário é belíssimo e faz você ficar abismado em cada curva na estrada. Sinceramente, não esperava que pudesse me surpreender depois dos cenários verde-montanhosos do Laos e Vietnã. Chiang Mai, cidade situada ao norte e a segunda maior do país, de fato é mais ocidental. As ruas são mais largas e limpas do que eu estava acostumada. Tem lojas de conveniência em cada esquina fornecendo tudo de básico que você precisa. E quando eu cheguei estava até passando um festival internacional de cinema! É uma cidade confortável para se viver, mas como turista não há muito o que se fazer. As pessoas geralmente vão a Chiang Mai pelos passeios nos arredores da cidade. Tem um parque nacional onde você pode nadar em cachoeiras e ver elefantes e também um “trekking” para se fazer que nada mais é do que seguir algumas horas por uma trilha e atravessar um rio com elefante, ambos super caros para o padrão da Tailândia. Porém, a forma que eles tratam os elefantes é duvidosa e eu procuro evitar tais passeios até talvez encontrar um onde eu tenha certeza que eles são bem tratados. Fiquei uma semana em Chiang Mai passeando pelos arredores (por conta própria, e não de agências turísticas) e esperando minha amiga espanhola, Isa, chegar para explorarmos mais o norte. Foi mais do que o suficiente. Assim que ela chegou, partimos para Pai, uma cidadezinha situada no meio de montanhas e plantações de arroz. Belíssima, aconchegante, mas mais uma vez, lotada de turistas. Via mais brancos que asiáticos. Restaurantes e bares grudados uns aos outros. Porém, se você quisesse, dava pra ficar em alguma pousada alguns quilômetros distante da cidade e sair do fluxo de turismo. Como era pequena, conseguimos fazer todos os programas em 2 dias.

Canion em Pai

Canyon em Pai

Pra ser sincera, não é do meu feitio ficar reclamando da quantidade de turistas em plena Tailândia, provavelmente um dos lugares mais turísticos do mundo. O país é convidativo. Sem necessidade de visto para a maioria dos países ocidentais, lindíssimo, e ainda por cima é barato (não mais tão barato assim para nós, brasileiros…). Alguns colegas que conheci no caminho reclamaram bastante da forte presença de turistas nos locais, mas aqui não tem como escapar. Os lugares mais bonitos/ interessantes vão estar cercados de viajantes. Se não quer estar cercado de turistas, não venha para a Tailândia, oras! Ou melhor, não venha para o sudeste asiático! Hehe Entretanto, não posso deixar de notar a rudeza dos nativos nas áreas mais turísticas, coisa que me incomodou muito na Tailândia. Até então quase sempre tinha lidado com pessoas super gentis aqui no sudeste. Geralmente, também, nos lugares mais turísticos tudo já está pronto até demais pra você, ocidental, faltando um pouco daquela influência da cultura/ jeito local que esperamos experimentar. Muitas vezes temos que pagar para visitar os principais templos. Monges distribuem bênçãos esperando uma contribuição. Muitas ilhas/ locais já não possuem o mesmo ambiente paradisíaco pela infraestrutura criada para o turismo. Tudo isso deixa, sim, as coisas menos apimentadas. Sinto falta até um pouco de perrengue, sabe? Coisa que eu enfrentava – mas de uma modo excessivo – na Índia e às vezes te fazia realmente sair da zona de conforto e ter uma experiência completamente inusitada. Isa e eu estávamos justamente comentando sobre isso (ela também já esteve na Índia), e ocorreu que no outro dia tivemos que pegar um ônibus local para ir à próxima cidade, Mae Hong Son – onde planejávamos fazer um trekking  “de verdade”, um pouco fora da zona dos viajantes – porque as vans já estavam lotadas. Acabamos tendo aquela experiência inusitada num ônibus que andava a 50 km/h e estava meio que caindo aos pedaços. Tinha ventiladores pendurados no teto ao invés de ar condicionado, janelas abertas, e poltronas conjuntas e rasgadas. Ficamos super empolgadas ao invés de reclamar!

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Penélope Charmosa. Rs!

Nesse ônibus conhecemos um casal de franceses super gente fina que também estavam atrás de um trekking para fazer. Acabamos nos juntando para o trekking com a mesma agência, só nós quatro. Mae Hong Son não tinha muito o que conhecer também, mas dirigir por aí de moto – uma das coisas mais comuns na Ásia – visitando algumas vilas e vendo a paisagem já é suficiente. Mesmo que seja repetitivo, não é possível se cansar de plantações de arroz e pores-do-sol na estrada! Depois de explorar a cidade por um dia, partimos para o trekking de 2 dias e uma noite na floresta tropical verde-kryptonita tailandesa. Esse trekking se tornou um dos pontos altos da minha viagem, testando meus limites e me fazendo experimentar algo totalmente diferente.

Em Mae Hong Son já dava pra sentir a diferença de se sair um pouco do eixo turístico. A pousada que ficamos era bem mais simples, com colchões no chão, o preço extremamente barato (cerca de $5 o quarto para 2 pessoas), e um dono que sabia só meia dúzia de palavras em inglês e nos levava para lá e para cá de graça na moto dele! Um dia depois do trekking (o dia de descanso, foi foda!) voltei para Pai para encontrar uma amiga filipina e procurar o voluntariado que tanto gostaria de fazer. Isa seguiria para as ilhas e em breve voltaria para a Espanha. Depois de alguns dias pesquisando e trocando e-mails, acabei escolhendo um voluntariado na região nordeste da Tailândia, perto da uma cidade chamada Chayiaphum. Iria ensinar inglês para crianças e ajudar no jardim. Em troca, me dariam acomodação e comida de graça. Isso era tudo o que eu sabia.

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Chegando no local, após longas horas de ônibus, senti que estava conhecendo, pela primeira vez, a segunda Tailândia, talvez a mais real. Modo de vida simples e humilde. Estou voluntariando numa vila de poucos mil habitantes onde ninguém fala realmente inglês. O senhor que está me recebendo é o único que me comunico com pouca dificuldade. Não tem nenhuma comida ocidental, é até meio difícil conseguir pão. As pessoas, porém, são extremamente gentis, tentam se comunicar com você mesmo existindo uma barreira linguísitica enorme, fazem questão de te pagar cerveja numa mesa de bar, e sempre te oferecem o que tem disponível – seja uma água, uma fruta, ou um almoço. Fica numa região bonita também. Não tão exuberante quanto o lado turístico, mas o suficiente para proporcionar pores do sol surreais quase todos os dias, completamente em meio a natureza.  Além de um inglês que está voluntariando comigo, só conheci outros dois estrangeiros que moram pela região com suas respectivas companheiras tailandesas. Infelizmente não são todos os mochileiros que tem tempo como eu para poder explorar mais a cultura local.  Me sinto numa aventura – mesmo que vivenciando um certo marasmo e de novo numa rotina – e sortuda pela oportunidade. Posso realmente dizer que estou vivendo adentro da cultura tailandesa – apesar da principal língua dessa região ser Lao! Haha – e por essa Tailândia tão genuína eu me apaixonei! Sawadika! 🙂

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Terminando, mais uma vez, com a lua cheia. Foto tirada no vilarejo onde estou voluntariando.

Minha visita ao Laos

Confesso que o Laos não superou minhas expectativas. Cheguei em Vientiane, a capital, partindo de Hanói, Vietnã, após 24 horas de ônibus numa viagem até que tranquila. Foram duas semanas cinzentas e extremamente chuvosas. É isso que dá vir para o sudeste asiático em meio às monções. Mas na verdade até o momento tinham sido bem tranquilas as chuvas no Vietnã – sendo brasileira e nortista, já estou meio que acostumada ao tempo chuvoso –, e imaginava que seria o mesmo no Laos. Teve um dia que choveu por 32 horas. Não sei quanto aos meus amigos brasileiros, em especial aos acrianos, mas eu nunca passei por isso na vida. Sou bem sensível com certos climas e dias cinzas consecutivos me deixam meio que desnorteada, melancólica. Sem contar que o principal no Laos são as atividades em meio à natureza, o que não combina muito com chuva. Estava sempre coberta de lama e com roupas molhadas que não secavam nunca. E o país, apesar de mais pobre que seus vizinhos Vietnã e Tailândia, é mais caro que os mesmos. Pesou no bolso. Expectativas, dinheiro e céus à parte, Laos é um país budista, muito bonito e com um povo educado e gentil – o mercado em Luang Prabang foi o mais organizado e educado que já fui na Ásia e muitos dizem o mesmo. Fiquei pensando o quanto seria maravilhoso vistá-lo na temporada certa. Mas pelo que li, não há uma temporada muito adequada. Quando não é a época de chuva, faz um calor insuportável. Geograficamente, é cheio de formações rochosas, florestas, cachoeiras, e cortado pelo gigante Mekong , o rio mais importante do sudeste asiático e um dos maiores do mundo. As cachoeiras Kuang Si Falls são quase que inacreditáveis. Se o céu existir mesmo, deve ser cheio de cachoeiras como essas. Muitos dos habitantes locais conseguiam se comunicar em inglês (não sei se dei sorte ou se realmente o inglês é forte no país), facilitando bastante a vida. A religião principal do país é o budismo, com muitos monges andando pelas ruas e rezando nos templos. A comida típica não conseguia se equiparar a do Vietnã, mas eles fazem uns sanduiches e crepes maravilhosos. E baratos! Comia todo dia. Tem uma história bem triste também envolvendo guerra e vou dedicar um post especial sobre o assunto.

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Uma espanhola super legal que conheci na estrada me convidou para desbravar o sul do país. Eu estava no norte, “perto” da Tailândia, próximo destino. Considerei seriamente a viagem. Vai que o tempo melhora, nunca se sabe. Dificilmente vou poder voltar ao Laos de novo. E ainda vou estar em boa companhia. Apesar da tentação de conhecer mais o país, pensar nas longas horas de estradas ruins em vans – não são nem ônibus! – que eu teria de enfrentar, no dinheiro e nas intermináveis chuvas me fez decidir partir em rumo ao norte da Tailândia, conforme havia programado ao deixar o Vietnã. Foi uma decisão difícil. No meu último dia no Laos, o sol saiu pela primeira vez. Tive um ótimo dia explorando as ruas e também tomando sol na piscina do Hostel (hehehe!). Fiquei pensando no Sul…

No fim do dia, peguei o ônibus para Chiang Mai, Tailândia, pronta para enfrentar 22h de viagem. Nesse ponto da viagem (quase 5 meses!) nem perco mais tempo pensando no terroooooooor que vão ser tantas horas num ônibus. Sendo necessário e a única opção viável para o meu bolso, só vou e pronto.

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Mas as estradas terríveis em direção à Tailândia me levaram até fazer promessa para sobreviver à viagem numa van, pelas montanhas, com chuva durante toda a noite (aliás, paguei a promessa hoje num templo). Apesar disso, as primeiras 3 horas da viagem foram simplesmente estonteantes, me deixando impressionada com a paisagem. Passeávamos entre formações rochosas com o rio Mekong dançando ao nosso lado. Me sentia quase que arrependida de não ter ido ao sul. Quando eu não imaginava que podia ficar mais bonito, vejo ela, singular, tirando toda a atenção da vista paradisíaca. Meio que escondia, a lua saiu de trás dos morros, numa cor amarelada, contrastando com o azul de fim de tarde que estampava o céu. Fiquei emocionada. Já estava com a câmera em mãos fazendo alguns vídeos, e passei a próxima hora só registrando a combinação mais perfeita de lua e morros que já vi (foi bem difícil escolher qual foto postar aqui). Ora se escondia atrás dos morros/ rochas/ nuvens. Ora se mostrava gigante no céu. Nesse momento, tive a certeza de que estava no lugar certo, na hora certa, com as escolhas certas. Valeu a pena e me sinto grata pelas duas semanas chuvosas – até mesmo pacatas – no Laos, ter deixado o Vietnã e estar agora na Tailândia. E até pelo resto da viagem aterrorizante que tive. Everything in its right place.

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A lua nascendo, saindo de trás dos morros